BELCHIOR FAZ 'AUTO-RETRATO'
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terça-feira, 13 de junho de 2000
Nelson Sato De Londrina 
O bigode, a voz anasalada e a pungência das canções marcam o encontro de um sujeito com um público imponderável. Belchior, 53 anos, é a atração musical desse meio de semana na região. Hoje ele se apresenta em Londrina na Cervejaria Santo Ponto, às 21 horas, e amanhã em Maringá no Teatro Marista.
Os shows estendem a turnê do CD-duplo Auto-Retrato, lançado no final do ano passado reunindo sucessos revistos com novos arranjos. O disco comemora 25 anos de carreira do cantor e compositor cearense e faz parte de uma coleção da gravadora BMG dedicada à geração nordestina dos anos 70 a qual pertence o artista incluindo títulos de Fagner, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho e Alceu Valença.
Belchior foi o representante mais urbano da turma. Quando surgiu, foi chamado de Bob Dylan brasileiro. Estourou nas paradas com canções como Apenas um Rapaz Latino-Americano, Medo de Avião, Tudo Outra Vez. O sucesso perdurou até a metade da década de 80, quando vicejou o rock nacional tirando a MPB na lista de prioridades das gravadoras, mídia e público.
Sem execução em rádios, vários músicos caíram no ostracismo suportando a sucessão de modismos musicais que passaram a dominar as paradas. Belchior continuou compondo, gravando e se apresentando aqui e ali em palcos menores. Talvez, os shows de hoje e amanhã tirem velhos fãs saudosistas de casa. Mas, talvez, também arrastem garotos que acabam de descobrir o poder de fogo de uma letra de canção. A seguir, os principais trechos da entrevista que Belchior concedeu, por telefone, à Folha2
Seu último disco, Auto-Retrato, traz antigos sucessos com uma nova roupagem incluindo recursos da eletrônica. No show que você apresenta hoje em Londrina e amanhã em Maringá, vão prevalecer as versões originais ou as regravações?
Serão shows acústicos. O repertório vai reproduzir boa parte das músicas do disco, passando naturalmente pelas canções obrigatórias, além de composições mais recentes.
Você usou os elementos eletrônicos apenas para esse disco em particular ou são recursos já incorporados ao seu trabalho?
Alguns críticos viram isso como uma novidade, quando na verdade desde que lancei Alucinação (1976) já desenvolvia um linguagem musical contemporânea, condizente com o período que estava vivendo. Foi o que fiz agora. Não houve uma apropriação gratuita da eletrônica. O que acontece é que as pessoas não acompanham o que se faz ao longo da carreira do artista e, quando um de seus discos faz mais sucesso que os anteriores, imagina-se que houve um vácuo, o que provoca uma distorção na análise.
Você acha que a sua geração foi subestimada pela crítica, para a qual não teria surgido nada na MPB depois do tropicalismo?
Acho que não. Até mesmo porque essa crítica proveio de nosso próprio trabalho. Fomos nós que chegamos falando que não havia nada de novo. Na verdade, nossa geração ressentiu-se da falta de crítica, na medida em que não foi objeto de comentário com a mesma intensidade que a geração anterior.
A que você atribui sua longa ausência da mídia?
Acho bom estar fora da mídia, se mídia quer dizer estar no Faustão, na Hebe. Mas meu trabalho teve continuidade ao longo dos anos. Todo dia praticamente estou fazendo um show, todo dia estou no rádio, na TV, no jornal ou no cartaz de rua. O problema é que a música que minha geração faz não interessa mais ao dia-a-dia das revistas e cadernos culturais. A crítica se empobreceu. Passou a comentar fenômenos televisivos e questões ligadas ao show business e ao marketing de entretenimento. Abriu espaço para criticar positiva ou negativamete a música baiana, o axé, o pagode e os sertanejos. Hoje só se fala em megaeventos, em quantos milhões de pessoas assistiram, quantos milhões de discos vendeu, quantos milhões foram investidos etc. Não se fala mais de música enquanto criação.
Quando você apareceu, chegaram a apelidá-lo de o Bob Dylan brasileiro e porta-voz da geração-70, graças ao poder de fogo de suas letras. Que fim levaram as letras com mensagens na MPB?
Primeiro, é bom dizer que ser comparado a Dylan em começo de carreira é glorioso, embora não fosse verdade, já que era demais para mim. Agora, quanto à questão, é bom lembrar que os bons autores da MPB prosseguiram seus trabalhos. João Bosco continua como os nordestinos, os mineiros, enfim, a música que se preocupa com a poesia cantada vai muito bem. Há inclusive bons autores surgindo, como a Adriana Calcanhotto por exemplo.
Você lançou o Auto-Retrato, que é uma revisão de seus grandes sucessos, no final do ano passado. De lá para cá, tem feito muitos shows pelo país. Deu tempo para se envolver em um novo álbum com canções inéditas ou algum outro projeto?
Tenho muitas músicas inéditas, mas não penso em gravá-las agora. Afinal, o Auto-Retrato é recente e sequer completou um ano no mercado. Acho que todo álbum exige um momento especial, uma necessidade própria. Não vejo sentido em lançar discos apenas por lançar. O Auto-Retrato teve ótima receptividade pelo público jovem e foi até uma surpresa pela grande vendagem obtida logo após seu lançamento, já que normalmente meus discos demoram um certo período para vender. Como vejo essa nova geração frequentando também meus shows, resolvei atualizar meu catálogo. Agora estou preparando o relançamento de meus títulos anteriores pela gravadora e distibuidora Eldorado.
Show com Belchior. Hoje, às 21 horas, na Cervejaria Santo Ponto (Av. Juscelino kubitscheck, 20170, em Londrina. Ingressos a R$ 20,00. Mais informações pelo telefone (43) 323-8459. Amanhã, o cantor e compositor se apresenta no Teatro Marista de Maringá (Avenida Itororó, 99), às 20h30. Ingressos a R$ 15,00.


