São Paulo, 17 (AE) - O cantor e compositor cearense Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes é um caso curioso dentro da música popular. Unanimidade de crítica e público na segunda metade dos anos 70, há 15 anos Belchior percorre uma trilha paralela e à sombra dos grandes astros que ajudou a projetar no passado. Mas seu sucesso permanece. Faz cerca de 20 shows mensais pelo País e grava um disco todo ano.
"Auto-Retrato" (BMG) é seu cavalo de batalha anual, recém-saído do forno. Nele, o cantor envereda por uma concepção eletrônica radical, revisando clássicos, como "Na Hora do Almoço" e "Galos Noites e Quintais". O resultado será apresentado amanhã (18) à noite, em show no TBC, em São Paulo. Na ante-sala do show, uma exposição de uma atividade que ele desenvolve desde criança, a de pintor. Serão expostos 40 de seus auto-retratos.
Belchior não quer saber de ser considerado um bardo que traiu a tradição em prol da novidade. "Eu me considero um dissidente dessa visão nordestina da música, que acabou gerando uma excesso de expectativa a meu respeito", diz o cantor. "Meu disco "Alucinação" (1975) já era um encontro entre a tradição - considerando-se que eu fosse algo como um menestrel - e a contemporaneidade". Ele lembra que chegaram a compará-lo com Bob Dylan, no início. Por conta da voz anasalada, fanhosa? "Por conta das eventuais qualidades ou defeitos", diverte-se.
O cantor considera que, com esse disco, não há quebra de continuidade do seu projeto criativo. Se ele fosse gravar hoje, garante, seria assim o seu primeiro disco. "Eu me lembro que, quando Elis Regina gravou minhas músicas, Ana Maria Bahiana escreveu, na época, que Elis gravara o roqueiro Belchior", lembra. Mas o fato é que agora não há apenas uma inflexão rumo ao rock em sua música. Há até drumnbass. Ele retruca que a eletrônica não é decididamente um fato novo em sua carreira. "Em 1985, eu fiz o show do disco "Cenas do Próximo Capítulo" com uma linguagem tecnopop, com Ivo Alencar e Dino Vicente fazendo samplers ao vivo", assinala.
Para Belchior, há no seu trabalho uma linha evolutiva muito espontânea e sem gap, sem separação do que vinha sendo feito. Ele também renega a idéia de que seu público seja eminentemente universitário, um público ainda nostálgico de um determinado período de sua carreira que virou simbologia, como os pôsteres de Che Guevara. "É um público amplo, as músicas têm um alcance muito popular", afirma. "De todas as manifestações de fãs, apenas uma considerou que esse disco representa uma quebra em relação ao que vinha sendo realizado em minha carreira", afirma
Para ele, "Auto-Retrato" tem um caráter de lançamento. "Não teria sentido querer confirmar o sucesso das minhas músicas, se já tenho certeza de sua boa repercussão", ele diz. Mas acentua que 13 das 25 canções do CD duplo não chegaram a ter o sucesso de "Apenas um Rapaz Latino-Americano" e "Como Nossos Pais". "Estão no disco como músicas quase que inéditas para o grande público". Belchior vê com desconfiança, mas não com uma atitude rancorosa ou raivosa, o fato de parte da crítica afirmar que ele produziu uma obra excepcional em determinado período e depois passou a viver disso, não produzindo nada de semelhante depois.
"Quanto a não ter produzido nada semelhante, não posso comentar, é algo subjetivo, mas acho que vem do desconhecimento do que fiz depois", afirma. "Eu até chego a discordar, porque acho que fiz coisas tão boas, tão sweet bitter quanto as outras, mas o fato é que essas canções não conseguiram obter o sucesso público e de execução das primeiras". Ele se define como um extraordinário ouvinte de música. "Posso não ter bom gosto, mas tenho um grande gosto". A poesia falada do rap, o rhythm and poetry, por exemplo, o interessam na medida em que encontra equivalentes nacionais. "Eu faço análises do samba-de-breque, dos cantadores do Nordeste, que é o nosso rap", afirma.
Ele próprio é uma grande expressão desse estilo de poesia falada. "No meu caso, isso veio mais dos cantos gregorianos no colégio de frades, onde estudei", lembra. "A origem do canto falado nordestino é toda ibérica ou provençal, assim como sua tendência épica e picaresca, e a forma poética dos cantadores de rua é toda ibérica, com as letras longas." Ele identifica reminiscências mesmo das coisas mouras que ficaram no Nordeste. Diz que Chico Science é um bom exemplar de difusão da música popular do Nordeste com expressões contemporâneas e que o insight inicial do músico pernambucano é até mais importante do que o resultado.
"É mais ou menos assim: a GE sempre vai fazer lâmpadas melhores do que a que Thomas Edison inventou", pondera. "Mas ele fez, ele criou e se as pessoas gostam ou não, é outra coisa". Belchior acha que, da sua geração de músicos nordestinos, Alceu Valença é o que mais se parece com Chico Science, na medida em que tem um projeto artístico mais ligado à contemporaneidade. "Alceu dá uma versão da tradição, mostra quanto ela pode ser vigente", ressalta. "Chico soma a tradição às técnicas e às qualidades contemporâneas".
Já Raimundo Fagner é um ótimo intérprete, assim como Elba, na análise de Belchior. "São as figuras mais centradas do ponto de vista da interpretação", considera. "Eu acho que Elba é a maior intérprete desse universo nordestino, que pode perfeitamente desempenhar o papel que Elis desempenhou, só que em relação a outro determinado universo de autores, de sentimentos, idéias e emoções". Mas não houve sempre uma parcela de analistas que diziam que Elba não cantava, mas gritava, tinha voz esganiçada.
"As pessoas que experimentam esse estranhamento é porque não conhecem uma certa diversidade musical", argumenta Belchior. "A elegância de Jackson do Pandeiro, o expressionismo de Luís Gonzaga, a pobreza de meios e o sentimento de João do Vale, que é puro blues: nós somos todos filhos disso", enfatiza. Para ele, quem ouve Elba reconhece a voz feminina de uma lavadeira na beira do rio, a voz que canta chorosa no enterro, que se alegra no coro da igreja. "A voz nordestina é composta disso, de dolência e grito", diz. "Mário de Andrade reconhecia até mesmo a voz nasalada como uma característica típica da música brasileira e que, no Nordeste, faz parte do próprio sotaque, da própria fala". Serviço - "Auto-Retrato". Show e mostra de retratos do cantor cearense Belchior. TBC (Sala Assobradado). Rua Major Diogo, 315, tel. 3104-5523. R$ 12,00 e R$ 6,00 (estudantes). Estréia amanhã, às 22 horas (dom. às 20 horas). Até 28/11

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