''Bela Donna'' é cartão-postal do Ceará
É difícil acreditar que Bela Donna foi dirigido pelo mesmo diretor de O Quatrilho. A disparidade qualitativa entre as duas produções é tão grande quanto a distância geográfica e cultural que separa os dois filmes. O Quatrilho foi rodado no Rio Grande do Sul e Bela Donna, no Ceará. Mesmo apoiado numa produção de Primeiro Mundo, o diretor Fábio Barreto pisou na bola. Mas pisou feio. Bela Donna é um bom filme para ser exibido em agências de turismo porque funciona muito bem como cartão-postal do Ceará.
A fotografia de Félix Monti explora as belas paisagens do litoral cearense, com direito a muitos, mas muitos banhos de mar, exibindo os corpos nus dos protagonistas Eduardo Moscovis - em ângulos jamais vistos nas novelas - e da atriz canadense Natasha Henstridge, que atuou em A Experiência I e II. Mas nem isso tira do telespectador a sensação de ter assistido a uma fita institucional do Estado do Ceará para gringo ver, pois 80% do filme é falado em inglês. Fábio Barreto reuniu um cast internacional. Além de Natasha Henstridge, estão no elenco Andrew McCarthy, que atuou em várias produções secundárias, Sophie Ward (O Enigma da Pirâmide) e a brasileira Florinda Bolkan. O roteiro, baseado no romance Riacho Doce, de José Lins do Rego, foi adaptado por Amy Ephron, que também foi roteirista de A Letra Escarlate.
É justamente nesse ponto que Bela Donna fracassa. O roteiro é fraco e mal costurado. O filme se passa em 1939 e conta a história do empresário norte-americano Frank que vem ao Brasil para encontrar petróleo. Durante sua estada no litoral cearense, sua mulher Donna se apaixona pelo pescador Nô. A roteirista Amy Ephron conseguiu transformar a obra de José Lins do Rego numa espécie de Nove Semanas e Meia de Amor tropical. Além disso, Fábio Barreto não soube extrair dos atores um trabalho satisfatório. A depressão e o instinto suicida da personagem Donna ficaram restritos a marcas em seus punhos. Já Andrew McCarthy que faz o marido traído, pouco acrescenta à obra. Nem Florinda Bolkan consegue convencer no papel de uma mãe conservadora e possesiva. Mas com um fiapo de roteiro nas mãos, fica difícil para qualquer ator fazer um bom trabalho.
O que salva Bela Donna de um resultado ainda mais desastroso é a primorosa fotografia e a boa trilha sonora composta por Dori Caymmi. No entanto, o mais lamentável é ver um bom diretor como Fábio Barreto assinar uma produção que nada acrescenta em seu currículo de cineasta do qual consta, inclusive, uma indicação ao Oscar. Fica a esperança de que em seu próximo projeto, ele recupere o brilho que o iluminou no set de filmagem de O Quatrilho. Lançamento Europa Carat. Duração: 105 minutos. (C.M.)





