Beijo polêmico
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sábado, 21 de março de 2015
Marcos Roman<br> Reportagem Local 
Enquanto flagrantes de corrupção e imagens de agressões físicas e morais acabaram se tornando comuns na televisão brasileira, demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo ainda são capazes de chocar parte dos telespectadores. Foi o que aconteceu esta semana com a novela Babilônia, que logo no primeiro capítulo mostrou um beijo na boca entre duas mulheres idosas (representadas pelas consagradas atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg). A cena criou polêmica e despertou a ira de alguns movimentos religiosos, que pretendem criar um boicote ao folhetim.
Um dos primeiros a se manifestar publicamente contra as personagens lésbicas da novela foi o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Em um artigo publicado no site Verdade Gospel ele acusa a Rede Globo de fazer apologia ao homossexualismo e a todo tipo de perversão sexual.
Nas redes sociais, representantes de alguns segmentos evangélicos têm proposto fazerem um boicote a Babilônia, sugerindo que os fieis deixem de acompanhar a novela por 35 dias para que, com a possível queda de audiência, os autores deem outro rumo às personagens homossexuais.
A iniciativa não tem sido apoiada pelo Conselho de Pastores Evangélicos de Londrina e Região Metropolitana. "Representamos várias igrejas evangélicas e não atuamos como órgão regulamentador. Cada uma segue sua própria doutrinação. Eu, particularmente, quando sou questionado por algum integrante da minha igreja sobre o fato de assistir ou não à novela, sugiro que a pessoa aproveite seu tempo lendo um livro, promovendo alguma ação edificante e desenvolvendo seu intelecto. Acho melhor tomar atitudes que promovam o crescimento pessoal do que ficar vendo cenas de roubo, adultério e outros fatos que agridem a família e a moral da sociedade. Mas quero deixar bem claro que não sou homofóbico e amo todas as pessoas indiscriminadamente", afirma.
Já a autônoma Ana Lúcia Sales Dias Baptista acredita que ao abordar o tema, os folhetins colaboram para ampliar o debate sobre questões ligadas aos homossexuais. "A novela somente mostrou uma realidade que já existe, mas que nunca é mostrada. Acho que as pessoas ainda se chocam por não estarem acostumadas a presenciar o beijo entre pessoas do mesmo sexo nas ruas. Isso só acontece em lugares reservados. Acho válido que a novela levante esse tipo de discussão sobre o direito que todo ser humano tem de demostrar afeto, independentemente de sua condição sexual", avalia ela, que assim como os personagens da novela há seis anos divide a vida com outra mulher.
Psicóloga, doutora em Educação e autora de diversos livros sobre educação sexual, Mary Neide Damico Figueiró também avalia positivamente o fato de os folhetins darem destaque a questões como a homossexualidade. "As novelas têm como lema trazer fatos reais para a ficção, e como alguns temas não fazem parte do cotidiano de algumas pessoas, elas acabam se sentindo incomodadas. E esse amplo debate levantado pela novela ajuda a promover discussões informais que contribuem para diminuir o preconceito", avalia.
Na opinião dela, muitos pais têm dificuldade de aceitar essa realidade pois temem que crianças e adolescentes sejam influenciados pela cenas de homossexualidade. "Não é isso que vai fazer a pessoa se tornar homossexual ou não. Os pais deveriam aproveitar essa oportunidade para conversar com os filhos e ensiná-los a respeitar as diversidades sexuais", conclui.


