Beckett em gestos
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terça-feira, 22 de maio de 2001
Francelino França De Londrina 
Godot é uma figura emblemática da literatura universal. Criado pelo irlandês Samuel Beckett na peça Esperando Godot (escrita 1946 e encenada em 1953), o mito onipresente do teatro se transformou num personagem clássico sem nunca ter aparecido num palco. Apenas Vladimir e Stragon o esperam. Para quê? Por quê? O mistério sobre quem ou o que seria Godot inflama o sucesso do texto, representada nos mais ininteligíveis idiomas. Godot pode ser Deus. Pode ser um trote. Na peça, dois sujeitos desamparados vivem uma situação limite esperam incansavelmente Godot , procurando um sentido para a existência.
A peça serviu de inspiração para os atores Artur Ribeiro e André Curti, brasileiros radicados nem Paris, criarem há dois anos a comédia dramática gestual Dos à Deux. A Cia. leva o mesmo nome do espetáculo e significa ao mesmo tempo se suportar e rejeição. A linguagem corporal da dupla encontrou ressonância nos palcos de diferentes países, como Índia, Marrocos, Cabo Verde, Itália, França, Portugal, Alemanha, Suíça e Brasil. Por aqui, eles já fizeram quatro turnês.
O espetáculo tragicômico Dos à Deux trabalha essencialmente o gestual dos personagens Vladimir e Estragon, ou Didi e Gogo. Dois opostos que se completam, numa relação de interdependência, amor e ódio, mestre e escravo. A partir do convite do pintor francês Michele Coustieu, que cria seus desenhos sobre movimentos, Artur e André montaram um espetáculo pocket de 15 minutos. A idéia fermentou para 30 minutos e chegou nos atuais 60 minutos.
Didi e Gogo são personagens que estão crescendo o tempo todo. Como tivemos contato com platéias de várias partes do mundo, eles vão se delineando, explica Artur Ribeiro. A primeira grande preocupação da dupla foi dramatúrgica, de como criar uma história sem palavras que não fosse apenas mímica. O gestual de Dos À Deux foi concebido a partir das técnicas do clown, dança contemporânea e mímica. Uma outra técnica utilizada porter referenda a relação de interdependência entre os personagens, porque os atores se locomovem com o corpo do outro. Duas cadeiras atuam como testemunhas e a árvore mitológica da peça original foi substituída por galhos suspensos.
Artur e André se questionaram: O que os dois personagens fariam para esperar Godot? Quais as situações que eles criariam? Ao fabricar o delírio geminado, Didi e Gogo lavam cuecas. Num determinado momento, contam os atores, as pernas dos personagens decidem partir e o corpo ficar, criando cenas engraçadas. O espetáculo é todo pontuado por músicas, que se integram ao delírio dos personagens.
Nessa releitura beckettiana, a dupla franco-brasileira procurou manter o perfume existencialista do clássico, mas a peça transita entre a comédia e tragédia todo o tempo. Em vida, Beckett foi questionado sobre o significado de Godot. Apenas disse laconicamente: Se eu soubesse, teria dito na peça.
Dos à Deux, concepção, coreografia, cenário e interpretação de André Curti e Artur Ribeiro. Figurinos de Charlotte Léo; Iluminação de Raphael Kelller; Criação sonora de Lionel Dollet e operação de luz e som de Marina Ravary. O espetáculo será apresentado somente hoje no Núcleo I (Rua Quintino Bocaíuva, 1243, às 23 horas).


