Beck Hansen, indicado ao Grammy, fala de sua nova turnê
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2000
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 13 (AE) - Indicado pelo segundo ano para o Prêmio Grammy de Melhor Performance de Música Alternativa (pelo disco Mutations), o norte-americano Beck Hansen - ou simplesmente Beck - firma-se como uma referência da nova música popular internacional. E parece que se sente à vontade nesse papel. "Comparado a Ricky Martin, eu realmente sou alternativo", disse Beck em entrevista, na tarde de quarta-feira, por telefone. Beck aparenta ser um tipo tranquilo, daqueles que não fica espalhando regras sobre o métier. Mas que sabe que está na crista da onda.
Odiado pelos roqueiros, amado pelos modernos, Beck responde evasivamente a uma questão crucial: não sabe ainda se virá ao Brasil este ano, mas tem a impressão de que virá. "No ano passado não pude ir ao Free Jazz porque estava trabalhando no novo álbum", ele conta. "Trabalhei nele durante seis semanas". Beck era tido como nome certo no cast do festival, que o corteja já há algum tempo.
Neto de Al Hansen, um dos expoentes do grupo Fluxus, time de vanguarda das artes visuais na América, Beck diz que chega ao fim do século acreditando ainda na idéia de vanguarda. Mas tem uma definição bem pessoal para sua crença. "Eu creio em uma música que não seja feita de fórmulas", afirma. "Mas que não seja necessariamente uma música hermética; eu também acredito na música popular", diz o músico.
Sobre seu trabalho, ele não é tão pretensioso, não tem a ilusão de integrar o mainstream (a corrente principal) da música. Ele crê que o mainstream já está bem representado com os medalhões, como os Beatles. "Eles eram grandes músicos, no sentido mais amplo da palavra", considera. "Eu faço música para o corpo, música para diversão", admite.
Beck está animado com os preparativos para a turnê mundial de lançamento do disco "Midnite Vultures", no qual se voltou para o funk dos anos 70, para referências dançantes da música negra, como Kool and the Gang. "Esse será um show de muita dinâmica, com muita gente no palco", avisa. Ao contrário de "Odelay", no qual tinha de rebolar para conseguir os efeitos que conseguiu no estúdio com músicos, ao vivo, aqui tudo que ele precisa é de um molho funky. E o que é preciso? Uma seção de metais. "Teremos uma seção com três músicos no palco", diz. O terceiro ainda está por ser definido, mas a banda básica já está montada: o guitarrista é Lyle Workman, o baterista é Victor Indrizzo, o baixista é Justin Meldal-Johnsen, o tecladista é Roger Joseph Manning Jr., o DJ Swamp cria os efeitos e os sopros têm David Brown e David Ralickie. O show estréia no dia 25 em Austin, Texas, no Music Hall.
Com "Midnite Vultures", Beck foi em busca de um universo sonoro que não viveu pessoalmente. Ele só tinha 8 anos em 1978. Apesar de ser um disco dançante e "feliz", por assim dizer, Beck não rejeita seu grande sucesso inicial, a canção que parecia sua profissão de fé, "Loser". "Sou um perdedor, baby", ele cantava. "Então, por que você não me mata?", fulminava o músico. "Eu penso que a música alegre é mais segura", diz Beck. "Eu gosto de "Loser", porque tinha a ousadia de ser intimista", pondera.
"Midnite Vultures" é um apanhado de 11 canções gravadas no estúdio caseiro de Beck em Silver Lake, Los Angeles, durante um ano de trabalhos. Inclui convidados como Beth Orton (na faixa Beautiful Way) e o ex-guitarrista dos Smiths, Johnny Marr, fazendo um riff de guitarra à Lynard Skynard em "Milk & Honey". "Muito da música do disco foi inspirado pelo mundo do rhythmnblues", confessa Beck, que tem 29 anos e também foi pioneiro em misturar o country com o hip-hop.
Ele afirma também que um dos seus inspiradores é o grupo Silk, um quinteto de r&b de cinco sujeitos, que fez apenas três discos em sete anos e faz meio mundo sonhar com novos tempos áureos para a música negra dançável. Além de Beth Orton e de Johnny Marr, ele teve apoio da dupla Dust Brothers que faz scratch em "Hollywood Freaks" e são co-produtores em Debra. "Beautiful Way", faixa com a participação de Beth Orton, é uma das mais bonitas do disco, um country desarticulado, quase se desfazendo. Beck toca guitarras, baixos e gaita e a voz de Beth é utilizada como um instrumento a mais, dialogando com o som. "Pressure Zone" é mais próximo da sonoridade de Mutations, o disco "tropicalista" de Beck - o mais recente.
A colagem e a justaposição não é uma característica nova do clã dos Hansen. O avô de Beck, Al Hansen, foi um dos expoentes do grupo de vanguarda de artes visuais Fluxus. Em setembro, Beck abriu uma exposição com seu irmão Channing e a mãe, Bibbe, denominada "Playing with Matches". Ele tem a impressão de que é também um continuador das lições do velho Al Hansen. A mãe de Hansen, Bibbe, também tem currículo. Ela passou parte dos anos 60 trabalhando com Andy Warhol em sua Factory, em Nova York.
Ele passava temporadas com o pai, pastor presbiteriano, e outras com a mãe, doidona nova-iorquina (o que explica um pouco seu estilo). Bibbe Hansen também estrelou o filme "Prison", com Edie Sedgwick. Nos anos 80, Beck esteve próximo da cena punk de Los Angeles. Mas foi o blues de Leadbelly que fez mais efeito em sua cabeça. Em 1989, mudou-se para Nova York, numa época em que os clubes do East Village, como Chameleon, faziam o que chamavam de "underground antifolk".
Em 1991, trabalhava numa loja de aluguel de fitas de vídeo. Em casa, experimentava criando sons em fitas demos. Foi quando Tom Rothrock, proprietário de um pequeno selo chamado Bongload Records, ouviu suas fitas e o apresentou ao produtor Karl Stephenson. Breve, lá estava Beck gravando na casa de Stephenson.
Em 1997, descobriu a Tropicália e o psicodelismo brasileiro de Os Mutantes. Tomou gosto pela coisa e até fez um samba com cuíca eletrônica chamado "Tropicalia", no disco "Mutations". Depois, na segunda metade de 1998, chegou a fazer um show ao lado de Caetano Veloso, na Califórnia. O álbum "Mutations", feito em apenas algumas semanas, foi o que lhe valeu a nova indicação para o Grammy este ano. Ele concorre com Tori Amos, Fatboy Slim e Nine Inch Nails.


