São Paulo, 15 (AE) - A partir de amanhã, o pianista Menahem Pressler vai escalar uma das mais altas montanhas da música erudita. Acompanhado pelo violinista coreano Young Uck Kim e o violoncelista brasileiro Antonio Meneses, que formam com ele o Beaux Arts Trio, Pressler enfrenta a integral dos trios de Beethoven em três noites, até quarta-feira, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. "Subir essa montanha não é fácil, mas estou em ótima companhia e disposto", diz Pressler, que fez o ciclo pela primeira vez com seus novos acompanhantes na Coréia, em março.
Pressler já está acostumado a subir essa montanha. Há 44 anos criou o Beaux Arts Trio e nomes famosos passaram pelo grupo. Só ficou Pressler, que, acompanhado por Bernard Greenhouse e Isidore Cohen, lançou, em 1984, uma caixa com a integral dos trios de Beethoven. Agora prepara outra gravação com os novos colegas, mas com certeza ela não deverá sair neste século. É um projeto para o próximo milênio.
"Ainda estamos na fase de aprender a tocar como se os três fossem uma única pessoa", diz o violoncelista Meneses, que há dois anos tomou o lugar antes ocupado por Peter Wiley e Bernard Greenhouse. O último costumava dizer que Beethoven não devia gostar muito de violoncelistas, pois todas as vezes em que escrevia um tema alegre o violoncelista sempre respondia pela parte mais triste. Pressler ri. Diz que não é verdade, mas reconhece que Meneses vai ter muito trabalho pela frente.
Quando Peter Wiley entrou no grupo, recusou-se a estudar o repertório do Beaux Arts com as partituras anotadas por Bernard Greenhouse. Não queria seguir os passos de ninguém. Meneses garante que nem passou pela cabeça de Pressler a mesma idéia.
Nova leitura - "Cada obra do repertório do Beaux Arts terá de ser refeita, porque lutamos para nos manter como indivíduos, apesar de buscar uma maneira de tocar como se nós três fôssemos apenas uma pessoa", observa Meneses.
O violinista Young Uck Kim também parece cauteloso quando fala do futuro do trio. "É como um casamento e estamos em plena lua-de-mel", diz, acrescentando: "É preciso esperar algum tempo para ver se nos entendemos mesmo." Pressler, do alto de sua experiência de quase meio século, sabe que não é fácil nos dias de hoje, em que o mercado erudito passa por uma crise, convencer produtores a investir em projetos ousados que marquem a nova formação. "Há anos pretendo gravar os trios de Villa-Lobos, mas sempre esbarramos na produção, porque o mercado
que já era limitado, ficou ainda mais restrito."
Ouvido interno - Traduzindo, ele quer dizer que, apesar do nome Beaux Arts, ainda é preciso convencer produtores e gravadoras não só a bancar Villa-Lobos como uma nova versão dos trios de Beethoven. "Quando um grande mestre compõe, ele os faz para o seu tempo e também para o futuro, cabendo a nós, músicos, sintonizar o pathos dessa experiência", diz Pressler, referindo-se à dificuldade de buscar uma nova leitura para os 11 trios de Beethoven que serão apresentados esta semana no Cultura Artística.
"Beethoven se move num registro que vai do sublime à extrema violência", observa, concluindo ser preciso desenvolver um som ideal no ouvido interno e tentar conciliá-lo com o "som ideal" dos companheiros. "É desse consenso que nasce a unidade do trio, porque tocar Beethoven é como seguir a Bíblia, chegar ao topo da montanha."
Quem acompanha a carreira do Beaux Arts está louco para saber se esse "ouvido interno" mudou muito nos últimos anos. Pressler garante que não ouve com frequência as antigas gravações, mas não as ignora. "De vez em quando ouço no rádio, mas esses registros parecem a vaga lembrança de um prisioneiro que esteve em Alcatraz e, em liberdade, tenta reconstituir a prisão", compara.
A representação metafórica pode ser entendida como uma resistência à nostalgia. "Ganhei um passaporte para a liberdade e pretendo aproveitá-lo com esses músicos maravilhosos que são Meneses e Uck Kim."
Serviço - "Beaux Arts Trio". De amanhã a quarta, às 21 horas. De R$ 50,00 a R$ 100,00 (estudantes até 30 anos pagam R$ 10,00 meia hora antes dos concertos). Teatro Cultura Artística. Rua Nestor Pestana, 196, em São Paulo, tel. (11) 258-3616. Patrocínio: BankBoston, Bovespa, Telefônica, Volkswagen, Votorantim. Apoio: Prefeitura do Município de São Paulo. Até quarta-feira.

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