São Paulo, 23 (AE) - Já tem gente dizendo que a vida imita a arte. Para além do chavão, há o fato de que o ator e diretor Warren Beatty anunciou recentemente que pode concorrer à sucessão de Bill Clinton. O que justifica a frase é o mais recente filme dirigido e interpretado por Beatty, "Politicamente Incorreto", que sai em vídeo sem ter passado pelos cinemas. Nele, Beatty interpreta o senador Jay Bullworth, que tenta a reeleição no pleito de 1996.
Se Beatty resolver mesmo se candidatar à Presidência dos EUA dificilmente agirá como o personagem. Bullworth é o tipo que, de tão enfastiado pelas maracutaias, resolve fazer o que nenhum político ousa - dizer a verdade. Mais: embebeda-se, cai na farra, fuma maconha, apaixona-se por uma negra e contrata um matador para liquidar a si mesmo.
A história tem momentos engraçados, como o que o candidato revela, cinicamente, que só prestara atenção à comunidade negra de olho no voto deles. Outras, mais, digamos assim, corretas, como aquela em que obriga policiais brancos a pedir desculpas aos garotos de rua negros. Mas o tom geral é de farsa. Até mesmo porque Beatty/Bullworth incorpora tanto a visão de mundo do oprimido que se expressa em versos de rap.
Nem tudo é brilhante, ou mesmo convincente. Há momentos mais fracos, em que a verossimilhança se dissolve num clima de escracho que parece um tanto forçado. Mas, claro, esse julgamento pode ser relativizado. Por caricato que seja, não se pode nunca subestimar o cinismo de quem habita o poder, ou vive nas franjas dele, como os marqueteiros e assessores em geral.
Sobra a ousadia da concepção geral do filme. Não se sabe exatamente se Beatty tem aquilo que se poderia chamar de um "pensamento político". Pretende-se de esquerda, e até ganhou um Oscar de direção por "Reds", uma adaptação do livro "Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo", em que o jornalista norte-americano John Reed descreve a Revolução Russa de 1917. Por "Politicamente Incorreto", infere-se que não anda lá muito contente com o rumo geral do país.
Deve-se reconhecer: poucas vezes o cinema norte-americano realizou crítica tão incisiva das instituições. Em geral, é aquele bom-mocismo de sempre: há alguns corruptos, as maçãs podres, que devem ser eliminadas em nome de uma essência que é boa. Beatty procura mostrar que a doença que contamina as maçãs provém do próprio centro do poder.
"Politicamente Incorreto" ("Bullworth"). EUA, 1998. Dir. de Warren Beatty, com Warren Beatty, Halle Berry. Distribuição: Abril Vídeo

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