Beats em quadrinhos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
Tudo - ou quase tudo - que se escreveu no Brasil sobre a geração beat omitiu informações sobre as representantes femininas do movimento. Coube a uma história em quadrinhos resgatar as poetas e artistas rebeldes das sombras.
Publicada recentemente no país, a obra ''Os Beats'' narra em um dos capítulos a trajetória de nomes como Diane di Prima e Jay DeFeo, além de pincelar os percursos das mulheres e filhas dos principais autores beatniks.
O trecho a elas dedicado é uma das curiosidades do volume, que chegou às prateleiras pelo selo Benvirá da editora Saraiva, a mesma que lançou há pouco a biografia do cantor David Bowie. A HQ foi produzida por um time de roteristas e desenhistas, embora metade da narrativa seja assinada por Harvey Pekar (que morreu em julho passado) em parceria com seu colaborador frequente Ed Piskor.
Todo o folclore de excessos que marcou a saga beat é retratado ao longo das páginas: a boemia, as orgias, a delinquência, o uso de drogas ilícitas, as viagens, a aversão à literatura bem-comportada, a criatividade incontrolável e a batalha para publicação de seus livros.
Chama atenção a crueza do relato, que não poupa episódios biográficos escabrosos - ou da intimidade - de seus personagens. A ênfase recai sobre Jack Kerouac (1922-1969), Allen Ginsberg (1926-1997) e William S. Burroughs (1914-1997) - a santíssima trindade do grupo que inovou a literatura norte-americana nos anos 50 e foi precursor da contracultura na década seguinte provocando grandes mudanças no comportamento de jovens do mundo inteiro.
Cada um deles tem sua vida reconstituída em detalhes. ''Burroughs estava vivendo no submundo naquela época, vivia chapado, vendendo o que roubava'', assinala o autor numa passagem. ''Enquanto isso, Kerouac e Ginsberg se envolveram sexualmente, mas Kerouak embora bissexual, na prática, era homofóbico'', acentua outro trecho.
Mais adiante: ''Burroughs desejava Ginsberg, mas quando Ginsberg o rejeitou, ele partiu para Tânger, onde era fácil conseguir drogas, assim como prostitutos''. O modo de vida desregrado dos protagonistas, no entanto, é só a a parte apimentada da narrativa, que traz um amplo painel sobre a efervescência cultural e o impacto posterior do legado beat sobre artistas como Patti Smith, Laurie Anderson e David Cronenberg.
''Os Beats'' recapitula desde os primeiros encontros entre um círculo de amigos em Nova York à sua explosão literária, passando pela agitação no College of Complexes de Chicago e na célebre livraria City Lights de San Francisco. Focaliza ainda autores menos badalados da cena como Philip Whalen e Kenneth Patchen, além das já citadas representantes femininas do movimento.
No texto de apresentação, Pekar e o editor Paul Buhle assinalam que o livro ''é uma produção em quadrinhos sem a pretensão de profundidade e interpretação literária trazida por centenas de livros acadêmicos em diversos idiomas''. Mas sua avalanche de informações biográficas talvez soe cansativa para alguns leitores.
Serviço:
- Os Beats - Graphic Novel
Autores - Harvey Pekar e Ed Piskor
Tradutor - Erico Assis
Lançamento - Selo Benvirá/Editora Saraiva
Páginas - 204
Quanto - R$ 39,90, em média


