BB entre linhas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de dezembro de 1997
Agência Folha 
ReproduçãoBrigitte Bardot: mito sexual dos anos 60, transformou-se em defensora de animaisE Vadim criou a mulher nua na tela, lançando, em 1956, Brigitte Bardot como produto excitante da indústria da liberação sexual. E Godard autopsiou o mito de consumo numa obra-prima sobre o vazio de mitos e odisséias no mundo moderno: O Desprezo (63).
Esse filme era desprezado por Bardot, como se lê em Iniciais BB(editora Scipione Cultural, 602 páginas), memórias da atriz em livro agora lançado no país. Embora analfabeta mental, BB escreve com certa graça, valendo-se de ironias e trocadilhos. Em cada linha, interjeição e reticências o leitor pode vê-la fazendo o célebre beicinho.
Comenta o Brasil (o estrago em Búzios, o horror pela macumba, Jorge Ben tocando violão para sua alegria encharcada de cachaça) e as paixões (como Serge Gainsbourg, que compôs para a musa a canção que deu título ao livro e Je TAime Moi Non Plus, gemidos trancados em cofre para evitar escândalos).
BobagensJá que se dispôs a escrever um catatau, BB, 63 anos, podia contar mais sobre os 48 filmes que fez de 1952 a 73 e os diretores com quem filmou (Guitry, Godard, Vadim, Malle, Deville). Mas ela nem diz o que pensa de seu sexy-papel e apelo na proa da moda sensual no cinema. Às vezes BB fala tantas bobagens e besteiras que a gente gostaria que ela fosse sufocada pelas peles de bebê foca que tanto se empenha em proteger. A atriz, simpatizante da extrema direita, demonstra um fastio pela profissão, preferindo viver descalça, paladina de bichos, num ecotolismo conservador.
É dose aguentar quando BB, decidida a dar seu carisma à causa (cruzada) em prol dos animais, compara um canil pestilento a um campo de concentração.
Bom e bacana: fotos e - algo básico, mas raro nas biografias de atrizes - filmografia. Porque, mesmo tentando fixar a vida na página, o que sobra é a imagem impressa na tela, e o papel vivido na realidade nem sempre é menos pior do que o de um filme.


