Baú de pérolas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Marcos Roman<br>Reportagem Local 
Mônica Salmaso volta a presentear seus ouvintes com um novo disco recheado de interpretações precisas, arranjos camerísticos e repertório impecável. Desta vez a cantora optou por gravar um songbook com 14 músicas compostas por Guinga e Paulo César Pinheiro, entre as décadas de 1970 e 1990. Lançado pela gravadora Biscoito Fino, o CD "Corpo de Baile" acaba de chegar às lojas, abordando um Brasil interiorano traduzido em bolero, valsas, ranchos e modinhas.
Denso e iluminado, o novo álbum mostra toda a versatilidade da intérprete passeando por canções de amor, modas de viola, além de temas folclóricos e religiosos. Todos entremeados pelas melodias, harmonias e letras requintadas, típicas dos trabalhos dos autores que cederam a ela cinco canções inéditas e outras poucas conhecidas, fruto da parceria iniciada na década de 1970 e rompida há mais 20 anos após desentendimentos entre os compositores.
Em entrevista à FOLHA por telefone, Mônica falou sobre o novo trabalho.
ENTREVISTA
O que chama sua atenção em relação às composições elaboradas por Guinga e Paulo César Pinheiro?
A primeira coisa é a qualidade. A sabedoria mesmo. São dois craques que sabem muito bem o que estão fazendo e têm uma compreensão muito grande da cultura brasileira. O Guinga mostra uma linguagem revolucionária da canção brasileira. O Paulinho Pinheiro domina assuntos da cultura popular como poucas pessoas neste País. As letras dele têm muita densidade e informação sobre o Brasil.
Tanto o Guinga quanto o Paulo César Pinheiro têm obras com outros parceiros. Na sua avaliação o que um acrescenta ao outro nas composições que fizeram juntos?
Na parceria dos dois acontece uma mágica. É uma terceira coisa. As composições em parceria reúnem o melhor dos dois. As melodias do Guinga são perfeitas para as letras de Paulo César Pinheiro e vice-versa. É um encontro mesmo.
Os dois não se falam há mais de 20 anos. Essa ruptura entre eles dificultou de alguma forma seu trabalho?
Os dois foram muito generosos e ficaram com muita expectativa em relação ao trabalho. Fiquei falando com eles o tempo todo desde o início do projeto. Tinha dúvidas e medo de cometer erros em notas, harmonias e melodias. Ficava incomodando o tempo todo, só parei na hora de colocar a voz (risos).
No disco você evoca um Brasil interiorano com valsas, modinhas e ranchos. Acha que o resultado ficou saudosista ou esses ritmos ainda ecoam na memória dos brasileiros?
É preciso haver equilíbrio em relação a ritmos que são tão nossos, muito mais até do que os que as pessoas estão sendo obrigadas a ouvir no rádio ultimamente. Fico feliz em trazer coisas nossas e dizer: olhem só a riqueza que nós temos.
As composições de Guinga e Paulo César Pinheiro são bastante complexas. É um desafio interpretá-las?
Faz dez anos que pedi para escutar as composições inéditas dos dois, após ter gravado Saci e Senhorinha. Mas naquela época estava no início, em outro momento da carreira e não me achava capacitada para assumir essa responsabilidade. Mas o Alma Lírica (disco e show lançados em 2011 com clássicos da MPB) me preparou para isso. Depois de gravar "Beatriz", de Chico Buarque, e "Derradeira Primavera", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, me senti preparada para fazer esse projeto.
Você não tem gravado novos compositores. Acha que o País está carente de novos talentos nesta área?
Recentemente fui muito mal interpretada e incompreendida porque em uma entrevista critiquei a industria cultural e acharam que eu estava falando de artistas novos. Continuo achando a música comercial bastante limitada do ponto de vista da abordagem da cultura brasileira. Mas isso não significa que no futuro não possa gravar um disco somente com músicas inéditas. Conheço um pessoal novo que faz um trabalho de altíssima qualidade e sempre que posso gravo ou faço shows com eles.
Citaria algum nome contemporâneo?
Gosto muito do Sergio Santos, que é um baita compositor mineiro e um excelente cantor. Admiro o Trio Conversa Ribeira, formado por relevantes músicos do interior de São Paulo, que fazem releituras de música caipira. Também gosto bastante da cantora Rhaissa Bittar, que faz um trabalho moderno e divertido, e da cantora e compositora Antonia Adnet.
Você pretende levar o repertório do novo disco para os palcos?
Essa é a nova missão. Idealizei um show com uma banda grande com oito músicos. Agora é preciso captar recursos para isso. Se conseguir apoio, pretendo estrear um novo show em março de 2015.


