Batuque da África e América
A herança cultural africana, que deu régua e esquadro à música brasileira, aos poucos vai se perdendo pelo tempo. A cada geração que passa, mais e mais empalidecida se torna a memória dos ritmos, das cadências, do colorido próprio dessa cultura. Mestre Caboclinho, que está em Curitiba participando da VII Oficina de MPB, como professor de percussão afro-brasileira, é quem mais se ressente dessa perda.
A garotada quer saber de funk, rock. Uma minoria se preocupa em conhecer a cultura de seu próprio país, diz o professor. Em Curitiba está dando aulas para 56 alunos. Temos aqui uma potência em ritmos, é uma coisa incrível, comenta. Nossa música tinha que ser ensinada nas escolas, para que houvesse maior brasilidade. O europeu dá mais valor para nossas coisas que nós mesmos.
O ensinamento afro-brasileiro invadiu o universo de Mestre Caboclinho quando este ainda era menino e conhecido como Ilton Ribeiro Vaez. Nos centros de candomblé adquiriu ciência, técnica e conhecimento. Discorre sobre passagens da Bíblia e dos cantos africanos, estabelecendo relações entre os personagens milenares.
Leandro TaquesMestre Caboclinho dá aulas de ritmos afro-brasileiros para 56 alunos na Oficina de MPB de CuritibaForam mais de 30 anos tocando no candomblé. Hoje, o professor cuida do curso ministrado na Universidade Gama Filho e das aulas particulares. Não raro recebe músicos profissionais vindos de outros países, especialmente da Europa. O músico esteve lá algumas vezes, apresentando-se com o grupo Baticum.
O Baticum, formado apenas por percussionistas, uniu-se a um grupo de metais alemão e juntos apresentaram-se com sucesso por diversas cidades na Alemanha, Áustria, Suíça. O sucesso foi tão grande que gravaram um disco ao vivo. Mestre Caboclinho diverte-se contando que em Weimar deu concerto numa cocheira, mas a hospedagem foi num hotel cinco estrelas. Viajando a gente aprende, diz.
Em 1994 e 95, respectivamente, passou um mês dando aulas em Berlim, junto dos parceiros do Baticum. No Brasil tocou com os mais conhecidos nomes da nossa música, como Gal Costa, João Bosco, Simone, Leni Andrade. Orgulhoso cita Orlando Silva, Dorival Caymmi; e caminhando para o passado lembra que nos idos de 1952, acompanhou Luz Del Fuego na Dança do Fogo.
Com Milton Nascimento atuou na Missa dos Quilombos. O espetáculo estreou no teatro, mas como os militares não gostaram da experiência, a saída foi registrar rapidamente em disco, para que não se perdesse na memória. Toda percussão dessa missa é criação minha, avisa.Luiz Cequinel/DivulgaçãoO americano Gary Chaffee mostra o lado americano do norte da música popular dentro da OficinaZeca Corrêa Leite





