Nelson Sato
de Londrina
1 é o nome do disco de estréia do mineiro Wilson Sideral. É Tudo 1 Real é o nome do segundo disco do grupo carioca Pedro Luís e a Parede. Críticos levianos poderiam até se divertir com os títulos, aplicando trocadilhos do tipo ‘‘os dois não valem um’’.
Mas há qualidades a destacar entre as 24 faixas reunidas nos dois CDs, particularmente no trabalho dos rapazes do Rio. Pedro Luís, a exemplo de Lenine, foi saudado tardiamente como ‘‘revelação’’ há dois anos ao lançar o álbum Astronauta Tupy.
Só que sua carreira remonta ao começo da década de 80 com passagens pelo grupo Paris 400 (que musicou e co-interpretou as músicas do espetáculo ‘‘A Farra da Terra’’, da trupe teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone) e pela banda punk Urge, de meteórica duração.
O novo repertório, contudo, distancia-se dos projetos antigos consolidando as idéias musicais buriladas nos anos 90. O disco, lançado pela WEA, foi produzido por Liminha e contou com direção artística de Tom Capone. A abordagem das composições é percussiva, com os grooves e batucadas sobressaindo em todas as faixas.
O grupo incursiona por vários ritmos, retrabalhando-os num sotaque particular, o que não é pouca coisa. Quando acertam o filtro, surpreendem. Mas nem todas as soluções obtêm bons resultados. O CD começa bem e vai decaindo nas últimas faixas. ‘‘Rap do Real’’, a que abre o trabalho, é um achado. Incorpora, sob uma levada funk, a fala dos vendedores ambulantes cariocas numa parceria de Pedro Luís com Rodrigo Maranhão.
Um trecho da letra diz: ‘‘...Vendo pilha bateria fita-cassete biscoito / paçoca doce-de-abóbara / doce-de-coco rádio-relógio / despertador do sono / não vendo é sonho / mas pode pedir / se não tenho / sei quem terá / vendo pano pra cortina / vendo verso pra rima / carta pro rapaz e carta pra menina / eu vendo provas de amores / por minha poesia e fantasia / Quanto vai pagar?’’...
Logo a seguir vem a grande faixa do repertório, a jorgebenjoriana ‘‘Menina Bonita’’, com acompanhamento de um cavaco e uma torradeira. A sequência empolga sucedendo-se o funk pesado do morro ‘‘Aê meu Primo’’ (com citações de versos do dominio publico ), o samba-dub ‘‘Cidade em Movimento’’ e a ótima ‘‘Mapa da Mina’’, esta trazendo percussão de Marcos Suzano e ecos de Gilberto Gil.
Além de Suzano, o disco tem participação de Lenine em ‘‘Quebra Quilos’’ e dos Paralamas no frevo-ska ‘‘Brasileiro em Tóquio’’. Pedro Luís, escoltado pelos músicos da banda Parede, ainda não estourou no mercado. Mas seu nome está bem cotado entre os pares. Já foi gravado por Fernanda Abreu, Ed Motta, Adriana Calcanhotto, Cidade Negra, O Rappa e Ney Matogrosso.
O trabalho de estréia recebeu elogios, mas foi desprezado pelo público brasileiro, ao mesmo tempo que teve grande acolhida no Japão, onde uma das faixas emplacou nas paradas ficando entre as cinquenta mais tocadas das rádios durante semanas seguidas. No final do ano passado, Pedro Luís fez uma temporada de sete shows em Tóquio.
Por isso há expectativas de que desta vez ele decole por aqui. Também parece haver alguma ansiedade, por parte dos executivos da gravadora Universal, em torno da estréia fonográfica de Wilson Sideral. Ele é irmão do vocalista Rogério, do Jota Quest. É dele o hit ‘‘Fácil’’, a canção mais executada do último álbum do quarteto mineiro.
Não por acaso, 1 tem muito a ver com o conceito retrô originalmente abraçado pela banda do irmão. Wilson Sideral reverencia a black music dos anos 70, e toda a concepção de sua figura - incluindo produção de fotos - sugere uma caricatura de Lenny Kravitz. ‘‘Eu sou Wilson, o urso do cabelo duro / Wilson, o urso do terceiro mundo’’, diz ele na autobiográfica faixa de abertura.
O CD foi produzido por Dudu Marote e levou dois meses e meio para ser gravado. Além de compor e cantar, Wilson é multiinstrumentista tocando violão, guitarra, baixo, percussão, sintetizador e orgão. O álbum tenta reproduzir uma sonoridade ‘‘de época’’, evitando excessos de produção para soar rústico, como se operasse a tecnologia de estúdio disponível há duas décadas e meia.
Wilson tem o mesmo timbre de voz do irmão, mas é mais áspero na interpretação e investe mais peso nos arranjos instrumentais. Mesmo assim faixas como ‘‘Eu Fico Louco’’, ‘‘Não Pode Parar’’ e ‘‘Zero a Zero’’ poderiam tranquilamente figurar no repertório do Jota Quest.
Há uma versão em português do clássico soul ‘‘So Very Hard To Go’’ e uma reinterpretação blues de ‘‘Bem Que Se Quis’’, sucesso do primeiro disco de Marisa Monte, ambas quilometricamente aquém das versões originais. Entre os convidados, Oswaldinho do Acordeon é o mais ilustre, tocando acordeon na faixa ‘‘Xote Atômico’’.
O trabalho oscila entre a sofrível ‘‘Eu Estarei com Voc꒒ e a ótima ‘‘A Primavera’’. Mas é em ‘‘Como Vai’’ que o artista registra a mais bem resolvida solução no conceito, remetendo ao fino do som black produzido na Filadélfia nos anos 70.O grupo carioca Pedro Luís e a Parede lança o segundo trabalho enquanto o cantor e compositor mineiro Wilson Sideral faz sua estréia nos discos
ReproduçãoPedro Luís e a Parede: tratamento percussivo das cançõesDivulgação e reproduçãoWilson Sideral: revivendo a black music dos anos 70

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