Batman e a visão enferma de mundo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
É bom deixar claro desde o início: ''Batman, o Cavaleiro das Trevas'' não seria nada do que é - e não é pouco, pelo contrário - sem o Coringa de Heath Ledger. Exagerado ? Demagógico, considerando que o ator morreu há seis meses aos 28 anos ainda no limiar (já fulgurante) de uma carreira que certamente o tornaria um dos mais versáteis atores de sua geração ? Necrofilia obviamente descartada, é solidamente óbvio que seu desengonçado e pérfido Coringa é o eixo sobre o qual gira o universo descentrado deste novo Batman que obscurece as telas do circuito nacional a partir de hoje - confira a programação de cinema na página 2.
Pode-se dizer que a visão enferma, psicótica, do mundo que propõe esta segunda incursão do roteirista e diretor Christopher Nolan ao território criado por Bob Kane verdadeiramente se consuma na personificação de Ledger. Há ali uma densidade, uma tal loucura que parece ir mais além do que o previsto pelo roteiro. É como se o ator tivesse aproveitado esta desfigurada cara de palhaço de rua para fundir-se - e fundir a ele todo o filme - num abismo que habitualmente não se observa nas mega-produções baseadas nos comics.
''The Dark Knight'' leva o espectador de volta a Gotham City, onde o vigilante Batman (Christian Bale) vem há tempos lutando contra o crime. Ele parece ter atraído uma nova, mais sombria raça de criminosos, sem mencionar um banco de imitadores de péssima qualidade. Cansado da lida, e pronto para desistir do alter ego justiceiro, Bruce Wayne observa o novo promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart) tentando limpar a cidade de um modo mais legal, sem expedientes heróicos.
O promotor está noivo de Rachel (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes), velho amor de Bruce/Batman, o que deixa o homem-morcego às voltas com certo conflito. Principalmente porque Dent é uma espécie de cavaleiro do dia em Gotham, e absolutamente incorruptível, algo raro na cidade nesses tempos em que há muita delinquência contra a qual lutar. Maroni, chefão do crime (Eric Roberts), está aterrorizando tudo e a todos. E há este novo palhaço, O Coringa, uma nova carta no baralho do crime.
E quem é este Coringa ? O que ele significa para Gotham ? É o pesadelo terrorista que permanece à espreita no subconsciente do cidadão médio dos EUA ? Sim, há algo disso sim nesta trama, mas a ambiguidade essencial no filme de Nolan, suas intenções mais ou menos opacas deixam um tanto turva a leitura política, pelo menos em termos lineares. De forma cristalina, este Coringa capaz de incinerar uma montanha de dólares encarna a face escura da Lua, a anomalia absoluta, o terror pelo terror.
Não deixa de ser significativa a anedota contada pelo mordomo Alfred (Michael Caine, formidável ladrão, roubando com astuta simplicidade cada cena em que aparece), quando associa o Coringa a um temido rebelde da resistência birmanesa nos tempos do império britânico. O Coringa é o ''outro'', o ''estranho'', o ''diferente''. Ao contrário, Batman representa o centro, o poder, o dinheiro. É o milionário Bruce Wayne de dia e o vigilante que à noite impõe a ordem.
O mesmo pode-se perguntar sobre o personagem de Batman. Quem é ele ? Vingador, justiceiro, parapolicial ? Uma fantasia que permite dar rédea solta a certas necessidades pessoais e sociais para logo deter-se no exato momento onde os limites éticos começam a desmoronar ? E afinal, para que serve um Batman ? Ele é funcional para Gotham ?
Aqui não há lugar para o romantismo poético de Tim Burton nos dois Batman realizados há quase duas décadas, nem para o comodismo da fantasia pop de ''O Homem Aranha'' ou a ironia adulta de ''Iron Man''. Este é um filme sobre um anti-herói duro - Batman não tem nenhum poder, e muito menos super-poderes - potente e eficiente que sempre flerta com a vingança, alguém às voltas com forte obsessão amorosa e rivalizando com adversários que parecem poder superá-lo em inteligência, audácia e ambiguidade moral.
A diferença entre heróis e vilões nos filmes de Christopher Nolan (Memento, Insônia, O Grande Truque) é que os últimos se atrevem a cruzar uma linha que freia os primeiros, mas que sempre representa uma tentação. Não é novidade: quanto melhor o vilão, melhor o filme. Aqui as atenções vagam pelas sub-tramas, mas acabam voltando para o Coringa, nada a ver com o desaforado palhaço de Jack Nicholson em ''Batman''. Aqui ele é o terrorista sem outra motivação que não a de provocar o caos, ou de provocar os limites de Batman e dos ''bons'', até onde podem se manter do lado correto da raia e não tornarem-se assassinos ou voltarem-se contra si mesmos.
''O Cavaleiro das Trevas'' corrige um equivoco de ''Batman Begins'': não há mais ênfase nos psicologismos de manual para explicar traumas do personagem. Estes já se conhecem, e os do Coringa, bem, descubram vendo o filme. Há algum humor esparso e bem menos pomposidade do que o filme anterior. Mas é igualmente obscuro, tematicamente denso e em vários momentos um tanto cruento, o que é suficiente para não recomendá-lo a menores de 14 anos.


