Batidas maneiras
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de março de 1997
Nelson Sato 
ReproduçãoWho Can You Trust?(Warner) e Viva! La Woman(Warner) ajudam a derrubar gêneros musicaisFaz tempo que não usa o adjetivo cool? Sossegue. Eis aqui, dois discos aptos a figurarem em qualquer CD play regado a sons contidos, batidas vagarosas e vocais sussurrantes.
Etiquetar os álbuns Viva! La Woman, da dupla nipo-americana Cibo Matto, e Who Can You Trust?, do trio inglês Morcheeba, não é tarefa fácil. Cibo Matto parece se situar em algum lugar entre o hip hop e o trip hop inserindo no meio samples de jazz e riffs de rock.
O grupo é formado pelas japinhas Miho Hatori (vocais) e Yuka Honda (teclados e programações), radicadas desde 91 em Nova York e já bem enturmadas com figuras como Beck, Beastie Boys e Jon Spencer Blues Explosion. Fãs confessas de música popular brasileira, as gurias estrearam com esse álbum e depois lançaram um EP contendo uma regravação de Águas de Março, clássico bossa-nova de Tom Jobim.
Chapantes Em Viva! La Woman, elas barbarizaram na colagem sonora. E com um quê de popice conceitual, adotaram a gastronomia como tema principal das músicas, que trazem títulos como Apple (maçã), Beef Jerky (carne-seca) e Artichoke (alcachofra). Alguém já tinha pensado num troço desses antes?
A faixa White pepper ice Cream (sorvete de pimenta branca) garante a mais elevada viagem auditiva do disco com uma atmosfera melancólica recobrindo batidas rap, singelos la-la-lás e vocalises celestiais. Know Your Chicken (Conheça sua Galinha) traz minutos hipnóticos com vocais rap, baixo destacado e inserções caprichadas de samples.
Menos surpreendente, mas de qualidade acima da média, o Morcheeba também traz batidas lentas, pedais wah-wahs na guitarra e climas chapantes em seu primeiro álbum. A voz de Skye Edwards é uma dádiva aproximando-se do timbre da nigeriana Sade Adu, sem no entanto escorregar em potes de mel como esta.
Extinção Moog Island, a faixa de abertura, fisga pela melodia, beats maneiros e teclados etéreos. Trigger Hippie traz guitarrinhas de música havaiana e scratches. Tape Loop estouraria em qualquer rádio decente, caso os programadores tivessem autonomia na seleção das músicas.
Longe do grande público, Cibo Matto e Morcheeba investem em ritmos calmos e reforçam a tese de que gênero musical é um espécime em extinção.


