Antônio Mariano Júnior
De Curitiba
No começo do ano passado, ela chegou a fazer um surpreendente show solo, em Salvador, com um repertório que baseava-se principalmente no funk e soul, embora também passasse pela MPB. Foi um belo espetáculo dirigido por Gabriel Villela. Era, digamos assim, um anúncio de que Ivete Sangalo estava disposta mesmo a deixar a Banda Eva e seguir seu próprio caminho. E com muita categoria. Alarme falso. Aquele show foi apenas um capricho pessoal de Ivete Sangalo. Um momento de bom gosto, apenas.
O mercado fonográfico atual fez a moça cair na real – é preciso continuar tirando divindendos, inclusive artísticos. Ainda não é hora de renegar a axé-music. Logo ela, eleita e reeleita zilhões de vezes musa da mixórdia percussiva em que se transformou a atual musica baiana. Noves fora, Ivete escolheu o caminho mais fácil em seu primeiro disco solo.
Não que lhe falte propriedades vocais para se arriscar em outros gêneros mais consistentes. Mas o negócio é que ‘‘Ivete Sangalo’’, lançado pela Universal, é mais um disco feito para as juntas do corpo. É assumidamente um trabalho de música pra pular brasileira, aliás o nome da quarta faixa do CD. O baticum rola solto pela maioria das 14 faixas. Portanto, o que não faltam são músicas endereçadas às rádios mais alegrinhas do Brasil.
No quesito ‘‘vamos tirar os pés do chão, galera!!’’, ‘‘Bota pra ferver’’ (Durval Lelys) é seríssima candidata a estourar logo, logo nas paradas em substituição à fraquinha ‘‘Tá Tudo Bem’’ (Alexandre Peixe) que já anda dando sinais de vida nos dials. Se bem que ‘‘100 o Seu Amor’’ (Carlinhos Brown-Luiz Caldas) tem lá seus encantos resumidos num baticum techno. Outra faixa ‘‘simpatiquinha e gostosinha’’ é ‘‘Mounsieur Samba’’ (Gal Sales/Jamoliva).
Ivete também ataca de compositora. É dela ‘‘Canibal’’ e ‘‘Medo de Amar’’, uma baladona que conta com o auxílio luxuoso do vozeirão de Ed Motta. A última é melhor, embora a letra caia no lugar do comum das desventuras amorosas. Das regravações, três merecem destaques. A começar por ‘‘Tenho Dito’’ (João Bosco), embora venha com solavanco percussivo questionável.
De Herbert Vianna e Paulo Sérgio Valle, foi pinçada ‘‘Se eu não te amasse tanto assim’’. A música não é lá aquelas coisas mas é nessa faixa que vem à tona toda a força interpretativa de Ivete. Agora, sejamos sinceros e justos: o resgate de ‘‘Sá Marina’’ (Antônio Adolfo- Tibério Gaspar), um dos grandes sucessos do grande Wilson Simonal, ficou uma tetéia.
O arranjo ficou por conta de César Camargo Mariano e conta com a participação especial do violonista Romero Lubambo, radicado atualmente nos EUA. É o melhor momento. Porém, buscar o prestígio de César Camargo Mariano, João Bosco ou mesmo Ed Motta não impede que se classifique ‘‘Ivete Sangalo’’ de descartável. Por ora, podemos dizer que Ivete Sangalo faz uma promissora estréia solo. Promissora do ponto de vista comercial porque o CD tem tudo para vender horrores. Agora, até quando vai durar essa onda, só Deus os dirigintes de gravadoras poderão responder. Se até Daniela Mercury, a rainha do balacobaco, precisa rebolar e fazer concessões para não ser destituída do poder, imagine o que uma musa, como Ivete Sangalo, não vai precisar fazer para manter-se em evidência...Ivete Sangalo estréia na carreira solo com um disco feito para agradar multidões adeptas à aeróbica de alto impacto
DivulgaçãoIvete Sangalo pretende agradar gregos e baianos com a sua música ‘‘pra pular brasileira’’, presente no novo CD

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