Bateristas fazem parte de uma grande família
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de janeiro de 1999
Zeca Corrêa Leite 
A 7ª Oficina de MPB não tem somente brasileiro ensinando os meandros do nosso som mais característico. O americano Gary Chaffee, que já dirigiu o Departamento de Percussão da Berkeley School, e atualmente dá aulas no New England Conservatory, está ensinando aos alunos em Curitiba os segredos da bateria.
Esta é a primeira vez que vem ao Brasil e não vê qualquer tipo de estranhamento em participar de um curso intensivo, como o da Oficina, voltado à MPB. A bateria é um instrumento universal, observa. O que ele está passando aos alunos diz respeito à leitura, à parte técnica. Mas tenta também satisfazer à curiosidade da garotada que quer saber mais sobre o jazz fusion, os caminhos que a música americana está tomando.
Os americanos renderam-se à música brasileira quando os jovens da Zona Sul carioca lançaram a bossa-nova. Houve um histórico concerto no Carnegie Hall, no início dos anos 60; Garota de Ipanema rodou o mundo, Tom Jobim foi colocado no pedestal como um gênio, e mesmo Stan Getz, quando gravou seu primeiro disco, baseou-se na bossa-nova, embora o título fosse Jazz Samba.
Quase 40 anos depois, os Estados Unidos continuam a se interessar e ouvir a música brasileira, mas aquilo que os norte-americanos consomem não é o mesmo produto que as rádios e televisões entopem o ouvido dos brasileiros. Logicamente há uma depuração, com tendência ao instrumental.
Nesta primeira visita ao País, Gary Chaffee está satisfeito com o contato estabelecido com os músicos. Ele comenta que toda nação, seja ela qual for, tem a sua particularidade sonora inatingível às partituras. Só mesmo com um professor daquele local para tentar transmitir as cores, andamentos e climas desejados.
Esse detalhe não está sendo problema na relação com os alunos em Curitiba. Para Chaffee todo baterista faz parte de uma grande família que se comunica facilmente; um baterista gosta de ouvir o outro. Tanto é verdade que tem revistas especializadas na Alemanha, Japão, Finlândia e muitos outros lugares, argumenta.
Interessado na percussão brasileira, o norte-americano vai assistir ao carnaval do Rio de Janeiro para mergulhar no mundo único da bateria das escolas de samba. Quero saber realmente como é que se toca aqui cada instrumento, afirma. Seus planos incluem a possibilidade de levar alguns instrumentos aos Estados Unidos, para mostrar aos alunos.
Ver carnaval é um sonho para todo baterista, conta Gary. O gosto de estar em plena Marquês do Sapucaí será vivido duplamente: da arquibancada, como turista e músico, e também como folião. Sua esposa está vindo especialmente para desfilar na escola Grande Rio. O músico garante que, de qualquer forma, estará aprendendo algo de novo, mesmo pisando na passarela, compondo o espetáculo para quem está de fora.


