Bate-papo
entre quatro
Antônios
O livro ‘‘3 Antônios & 1 Jobim’’, publicado em 1993 pela Relume-Dumará, foi baseado em um vídeo homônimo que reunia, em um bate-papo informal coordenado por Zuenir Ventura, Antônio Callado, Antônio Candido, Antônio Houaiss e Antônio Carlos Jobim. No Museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, os quatro se sentaram numa mesa colocada embaixo de uma grande mangueira. Ali se deleitaram com um vinho chianti escolhido por Houaiss para acompanhar o prato que fizera com esmero: fettuccine com ovas de salmão. A seguir, alguns trechos da conversa publicada no livro.
Houaiss - Sou um profissional da palavra, no sentido mais operário do termo. Não sou um criador, como o Callado. Não seria capaz de usar a palavra para dizer as coisas que ele diz. Não enveredei por esse caminho. Não prejulgo nem o julgo. Ele enveredou por um caminho altamente relevante, como também foi o caso do nosso querido Antônio Candido, que é um dos mais brilhantes críticos da nossa literatura e da criação do imaginário brasileiro. E não estou aqui fazendo louvor. Tenho apenas a humildade de dizer que gostaria de ser aquilo que não tenho tido oportunidade de ser no momento: um operário da palavra. Sou aquele que pega os tijolinhos separados e constrói uma forma que é fundamental para nós, o edifício de tijolos que se chama dicionário.
(...)
Houaiss - Dicionário está virando um objeto puramente comercial.
Tom Jobim - É a comercialização de tudo.
Houaiss - Falsificam tudo.
Tom Jobim - Exatamente. Falsificam até dicionário.
Callado - Isso é coisa grave.
Tom Jobim - Todos nós somos Antônio, mas entre nós há dois Antônio Carlos: Callado e eu...
Candido - O verdadeiro Antônio é o Houaiss. Vocês são Carlos e eu sou Candido. Houaiss é Antônio puro! Aliás, como cândido pode ser sinônimo de puro, ele é o verdadeiro Antônio Candido. Um amigo libanês me disse que a palavra árabe daher quer dizer cândido, branco, puro. De modo que meu nome em árabe é Antun Daher. (Risos)
(...)
Tom Jobim - Cada mulher que eu não tive foi uma canção que eu fiz.
Houaiss - Que bonito! Essa frase é imortal. Ele não sabe o que disse.
Tom Jobim - E o Millôr respondeu na hora: ‘‘Mas cada canção que eu não fiz foi uma mulher que tive’’...
Callado - Cuidado hein... Eu estava lendo um romance de Jorge Amado em que ele diz: ‘‘Não se pode ter todas as mulheres no mundo, mas se deve tentar’’...
Houaiss - Nesses temas sou muito discreto meus amigos. Discreto porque, realmente, fui um homem que tive uma superfelicidade. Eu creio que o meu Antônio Candido também. Essa singularidade de termos tido algumas coisas paralelas é tão irrelevante em nossas biografias que até temos pudor de falar sobre isso. Para mim, concretamente, eu tive Ruth, companheira fundamental, e as circunstâncias da minha vida me permitiram que ela, durante 47 anos, fosse minha companheira.

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