Guilherme Fiúza é um escritor que não se decepcionou com a carreira de jornalista para mergulhar em romances e ficções. Pelo contrário: com a verve de repórter trouxe ao público histórias quase cinematográficas. No primeiro livro, ''3000 Dias no Bunker'', escreveu sobre o Plano Real e os bastidores políticos da implantação do sistema. O próximo, ''Jaruá-Paris'', com lançamento previsto para novembro, irá falar de um grupo da elite carioca que, após conhecer Chico Mendes, passou a lutar por causas ambientais, que renderam até ameaças de morte.

Mas foi com ''Meu Nome Não é Johnny'' que sentiu o sabor do sucesso. Na obra, abordou o drama de João Estrella, rapaz de classe média alta que se envolveu com drogas e se tornou um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro. Os temas díspares de suas obras revelam uma obstinação literária do jornalista: escrever histórias originais, que caberiam bem nas telonas. Como foi o caso de Estrella, vivenciado por Selton Mello no longa de Mauro Lima.

Atração da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) neste ano, Fiúza debateu na companhia do inglês Misha Glenny um tema do qual se tornou ''referência'' depois de Johnny: o mundo das drogas. Ele não defende a legalização, mas diz que é preciso amadurecer a discussão. E que a sociedade pare de encaminhar o assunto para o estereótipo da violência urbana.

Por que a discussão sobre as drogas não evolui?
Quase sempre quando se começa a discutir, o assunto deriva para a questão da violência urbana, que é outro problema. E pronto, perde-se a possibilidade de discutir a experiência daquele usuário, a questão comportamental, e, pior, de entender se aquilo é um pedido de socorro, seja emocional ou psicológico. E acontece o que é hoje, nos tornamos reféns psicológicos do crime organizado. E o debate continua interditado, com desvios.

Em ''Meu Nome Não É Johnny'', você traz outra visão sobre o tema, a de um rapaz de classe média.
Pois é. Quando discutimos a pessoa, e o livro e o filme têm esse caminho, você tem uma abordagem um tanto rara na cultura brasileira, e que não deveria ser. Ou seja, mostrando a relação das drogas do ponto de vista de uma pessoa comum, que não é um excluído ou um estorvo familiar. Aí é que fica interessante. Pois os usuários, curiosos ou viciados têm oportunidade de olhar para aquele assunto subtraindo os tabus, sem a visão do irresponsável, do delinquente.

Você passou a ser tratado como especialista nisso depois do filme?
(Risos) Depois do filme, os jornalistas começaram a me ligar para falar da guerra do tráfico no Rio, 90% das entrevistas era sobre o crime organizado. Tinha repórter que me ligava para perguntar quem ia ganhar a briga do morro tal, e eu falava ''sei lá''.

O que mais costumam te perguntar sobre esses assuntos?
Várias pessoas vêm me perguntar como se faz para acabar com as drogas. Eu penso que só pode ser piada. Isso nunca vai acontecer. Nunca vi alguém que quisesse se drogar não conseguir obter o produto. Por isso tem que abrir os canais para tirar esse preconceito. Só que é complicado.

Por quê?
Por exemplo, tenho vários amigos que na teoria são esclarecidos. Só que quando o problema é em casa, é o filho que aparece com uma seda (para enrolar maconha), o cara retrocede 40 anos em 5 minutos e quer chamar os problemas para ele. Está errado. Quem usa tem que entender que o problema é dele.

Na Flip, o jornalista Misha Glenny sugeriu que a maconha fosse liberada por cinco anos para ver se daria certo. Concorda?
Da mesma forma que não se pode impor a repressão contra os usuários, também não se pode autoritariamente liberar. Tem que conversar. É um processo que demora.

A Lei do Usuário, que permite o porte de até cinco gramas de maconha, é um avanço nesse sentido?
Claro. Esse abrandamento da criminalização é bom por isso. Ajuda a coletividade a enxergar aquele delito de outra forma, com gravidade menor.

Mas o assunto ainda é evitado pelos governantes. Por quê?
São três pontos. O primeiro é o problema dos tabus. Houve uma construção cultural que associou as drogas à marginalidade, à burrice. O segundo é que existe uma rede de corrupção no comércio das drogas ilegais, em que se lucra alto. E, por último, há uma complexidade do tema. Por isso, na lista de prioridades dos políticos, o tema vai lá para o fim. Aí fica naquela gavetinha dos tabus.

''Meu Nome Não É Johnny'' falava de uma pessoa de classe média. No seu próximo livro, ''Jaruá-Paris'', você aborda uma turma da elite. Que mensagem busca passar?
Não quero passar mensagens. Sou um jornalista que gosta de contar boas histórias. Gosto de mostrar o ser humano em situações extremas, pessoas com grandes paixões, como nesse livro que vou lançar e que fala de pessoas importantes, como Bia Saldanha, João Augusto Fortes, Virgínia Gandres, entre outros. Eles se associaram a uma causa ambiental e sofreram fortes represálias. No caso do João Estrella, o que me desafiou foi falar de um personagem de classe média, uma classe pouco explorada. E são pessoas que quando transgridem são vistas com preconceito, do tipo 'olha lá o playboy'. E não é isso. São pessoas que têm necessidade de transgredir, como todo mundo.

mockup