BATE-PAPO COM ARTISTA - Moacyr Franco dá show de versatilidade
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domingo, 16 de dezembro de 2007
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
Moacyr Franco, 71 anos, pode ser definido como caipira e intelectual, kitsch e cult, um mito, mas continua sendo um dos mais produtivos artistas brasileiros após mais de 50 anos de carreira. Hoje, agradece, faz o que quer na vida. Compõe música tanto para duplas sertanejas, quanto para o João Gordo, faz comédia na TV, escreve livros e viaja pelo Brasil. Trazido a Londrina pela Caixa e Secretaria Municipal de Cultura para celebrar, na Concha Acústica, o aniversário de 73 anos da cidade, Moacyr cantou, fez piada, deu uma jóia para a esposa, que também comemorava idade nova, e emocionou o público que lotou o show.
Encontramos o Moacyr no hall do Hotel Bourbon, cantarolando uma música e pedindo um chocolate quente minutos antes do show. ''Antigamente era conhaque'', brincou, para logo em seguida ser surpreendido com uma homenagem prestada pelo presidente da Academia de Cultura do Paraná, Paulo Carvalho. O artista recebeu a Comenda Umuarama, maior distinção da Academia, pelo conjunto de sua obra e deixou escapar uma ponta de ressentimento. ''Não mereço isso porque em mais de 50 anos de arte nunca ninguém me premiou em nada'', reclamou.
Qual tem sido a melhor parte de sua experiência?
A melhor parte é descobrir que o destino cuida de você, mesmo você não querendo. Fiz tanta besteira na carreira e na vida, mas sabendo que todas elas estavam ensaiadas em algum lugar, escritas. Na minha vida, o final está sendo maravilhoso. O final que digo vai demorar ainda uns 30 anos. Vai ter muita cortina para se abrir. Estou em plena atividade, voz ótima, com muita inspiração, cabeça boa e escrevendo muito bem, que é a virtude de que mais me orgulho.
Você continua compondo muito?
Quase não consegui dormir aqui em Londrina porque é dupla me ligando toda hora. Estou fazendo um trabalho para o Guilherme e Santiago que é poesia no meio das músicas. E meu espectro aumentou porque estou fazendo rock também, para o Léo Jaime e até para o João Gordo. Só tenho uma frustração, de não penetrar na camada ''cult''. Esse pessoal não me acha ruim, nem bom, nem nada. Eles simplesmente não acham nada.
Você se sente injustiçado por isso?
Muito, porque tenho certeza de que minha obra é boa. Ela não é como fulano de tal, não é como sicrano, não é como deveria ser, mas existe e é autêntica. Meu verso é batatinha quando nasce. Só que o que eu digo, as histórias que conto, precisam ser mais analisadas.
O Moacyr Franco consegue tirar férias?
Não, e detesto. Gosto de curtir as horas que tenho com minha família. Minha casa é um verdadeiro ''resort''. Tem 15 cachorros, lago, peixe, pato, ganso. É uma roça cercada de mato. Sou pobre, sou duro, porque gasto tudo o que consigo ganhar.
Mas você fatura bem com direitos autorais?
Acho que ganho melhor do que muita gente da minha classe. Gravo muita música com muita gente diferente. Agora, por exemplo, descobri que o Zeca Pagodinho gosta muito de mim. Vou aproveitar e pular na garupa dele. Quero que ele grave uns dois ou três sambas meus.
Você também está escrevendo dois livros?
Me encomendaram dois livros. Quando os caras vêem que você está perto de morrer eles pedem para escrever bastante. Todos são muito fãs das minhas histórias desde garoto até os meus quase 10 casamentos. Acho que é um bom acervo para deixar para a Daniele e meus filhos.
Com tantos anos de carreira que emoção você ainda sente em se apresentar ao ar livre?
Fico muito contente em saber que me chamam para fazer show. Mas tenho certeza que enche de gente por causa do amplo espectro do pessoal que me assiste. Antes, porque era um ídolo dos anos 60 e 70 e os velhos vêm. Depois, foi a fase da música sertaneja, na qual sou o compositor de uma dezena de sucessos. Esse pessoal na faixa dos 30 e 40 também comparece. Agora, na ''Praça É Nossa'', com o Jeca Gay, a criançada também curte. E mais ainda. Há dois anos, a Rita Lee colocou minha música ''Tudo vira bosta'' na novela e as faculdades começaram a me chamar para fazer palestras.
Você já veio diversas outras vezes para Londrina...
Já vim muitas vezes. Já tomei cana em Londrina de tudo que é jeito que você possa imaginar. Sei a história de Londrina da década de 60 até hoje. Sempre gosto da cidade como era, mesmo na minha terra. Lá, quando me perguntam, eu digo que amo a cidade que está embaixo do asfalto. Sempre gosto mais do simples. Sou antiprogresso. Eu gosto do desenvolvimento da mente, o resto só foi prejudicial para todo mundo.


