BATE-PAPO - Um raio X das crônicas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de novembro de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Um gênero que perdura desde o primeiro texto escrito sobre o Brasil: a carta em que Pero Vaz de Caminha descrevia o território brasileiro. Mais de cinco séculos depois, a crônica sobrevive e ganha cada vez mais adeptos, tanto escritores quando leitores desse modo tão particular de contar uma história. Para desvendar o segredo da persistência do gênero, os escritores Ana Miranda e Zuenir Ventura ministram hoje, em Curitiba, a palestra ''Cronicamente Viável - Machado de Assis e sua influência sobre os grandes crônistas do século 20''. A palestra integra a programação do Circuito Cultural Banco do Brasil e faz um passeio pelas crônicas brasileiras desde o texto de Caminha, considerado a primeira crônica escrita no Brasil.
O autor de Dom Casmurro, no entanto, é considerado um divisor de águas do gênero. ''Machado de Assis é a matriz de todos nós. É a nossa referência'', diz o jornalista e escritor Zuenir Ventura, ele próprio adepto do gênero. Para ele, o segredo da sobrevivência da crônica está justamente em revelar o olhar do cronista que é, ao mesmo tempo, o olhar do leitor. ''O cronista olha os detalhes, as miudezas e esse é o segredo da longevidade do gênero'', analisa complementando que a crônica é um espaço muito generoro e democrático, também motivo de atrair tantos leitores.
Na palestra de hoje, montada especialmente para o evento, Ventura e Ana conduzem os espectadores ao universo das crônicas, escolhendo autores ícones do gênero. Além de Machado de Assis, são mencionados textos de escritores como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues e Luiz Fernando Veríssimo, para citar alguns. Carlos Drummond de Andrade também faz parte desse descontraído passeio. ''O Drummond dizia que a crônica é uma vadiagem. É uma ótima definição'', diz Ventura.
O escritor também considera que a crônica está ''contaminando'' o jornalismo. ''Mas acho que é uma contaminação do bem'', analisa. Para Ventura, que ajudou a escrever a história do jornalismo no País, o jornalismo hoje está estereotipado. ''Hoje temos um bombardeio de informações, mas é tudo muito parecido. Essa obrigação de seguir o lead, de responder aquelas perguntinhas básicas logo no começo da matéria deixa todos os textos iguais. A crônica se sobrepõe a isso'', considera.
E por falar em novas influências, Ventura deixa escapar o tema do seu próximo livro. ''Ainda não estou falando muito no assunto porque não sei como vou abordar, mas já sei a temática''. E revela em primeira mão a Folha. ''Vou fechar a trilogia começada com ''1968: o ano que não terminou'' (Nova Fronteira, 1988) e seguida por ''Cidade partida''. No primeiro livro, que imediatamente se transformou em best seller, o jornalista recria os acontecimentos políticos, culturais e comportamentais que sacudiram o Brasil naquele ano, partindo de entrevistas feitas por ele e de materiais inéditos, como a fita com a gravação da reunião que decidiu pelo AI-5.
Já em Cidade Partida (Companhia das Letras, 1994), Ventura faz uma reportagem sobre a violência no Rio de Janeiro, citando em especial a chacina de Vigário Geral, em 1993. Durante vários meses ele foi a Vigário Geral, e chegou a entrevistar para o livro o chefe do tráfico local, Flávio Negão. ''No primeiro livro eu falo sobre uma geração excluída politicamente, no segundo sobre uma geração excluída socialmente. Agora, para fechar essa trilogia, quero falar sobre a geração de hoje'', revela. ''Mas não sei exatamente como vou fazer isso. Estou tendo dificuldade porque não existe mais o conceito de geração. O que existem são as tribos. Está tudo muito segmentado, como é o mundo hoje'', diz.
Nascido em Além Paraíba, em Minas Gerais, Zuenir Ventura é jornalista e professor universitário há quase 40 anos. Foi editor do Caderno B e criador do suplemento Idéias, ambos no Jornal do Brasil. É um dos fundadores da Esdi-Escola Superior de Desenho Industrial. Trabalhou como repórter, redator e editor em vários jornais e revistas. Ganhou o prêmio Esso de Reportagem e o Prêmio Wladimir Herzog de Jornalismo, em 1989.
A sua parceira na palestra, Ana Miranda, é cearense. Nasceu em 1951, em Fortaleza, Ceará, mas passou parte de sua infância e juventude em Brasília, morando depois no Rio de Janeiro. Sua vida literária teve início em 1978 com a publicação de um livro de poesias. Seu primeiro romance, ''Boca do Inferno'', foi publicado em 1989, obra que já foi traduzida nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Espanha, Suécia e Holanda, entre outros países. Recebeu o Prêmio Jabuti de Revelação, em 1990. O tema Cronicamente VIável prossegue com a palestra ''Crônica e Jornalismo: uma reflexão sobre a imprensa no Brasil'', com os jornalistas e escritores Ivan Ângelo e Nirlando Beirão.
Serviço:
- Palestra ''Machado de Assis e sua influência sobre os grandes cronistas do século 20'', com Zuenir Ventura e Ana Miranda. Hoje, às 18h30 no Museu Oscar Niemeyer. Entrada franca.


