Se um cantor não tiver a sensibilidade de entender o que pede a melodia e a letra, um tango pode soar retilíneo. Para determinadas músicas você tem inflexão exata e, portanto, nesse disco, houve um trabalho de intérprete, certo?
Você está certo, só que eu não consigo explicar como isso acontece. Sai ou não sai, entendeu? Se sai mais assim como ''Esta Noche me Emborracho'' ou mais clássico, mais sério como ''Cuesta Abajo'' ou ''Mano a Mano'' não sei explicar sinceramente. Acho que o que me inspira é conviver dentro da qualidade da música e da harmonia. Deve ser isso.

Edith Piaf, Amália Rodrigues, tangos. Você parece estar tomando cada vez mais gosto por cantar, é isso?
Quando tinha minha companhia de repertório e fazia exclusivamente peças de teatro sem música nenhuma, houve uma época em que a safra de autores mundiais de comédia começou a ficar ruim. Os clássicos, claro, estão aí, faz-se Shakespeare todos os dias. Mas o popular do mundo estava piorando ou acabando. Um dia fui convidada para fazer ''My Fair Lady''(1962), depois ''Alô Dolly'' (1965), ''O Homem de La Mancha'' (1972), entre outros musicais, e comecei a brincar com música. Tempos depois fiz ''Brasileiro Profissão Esperança'', dirigi muitos musicais, dirigi Maria Bethânia, Elizeth Cardoso, Clara Nunes e tudo isso foi me dando um cabedal e eu resolvi cantar também.

Cantar e gravar disco, também, não?
Pois é...Cantar é uma coisa que venho aprendendo diariamente. Minha voz, hoje em dia, está muito melhor que a voz que cantou e gravou ''My Fair Lady'' e ''Alô Dolly'', por exemplo. É impressionante. Coloque o disco e verá a diferença entre eu cantando com domínio total da respiração hoje em dia e sem domínio nenhum no passado.

Qual sua classificação vocal, Bibi?
(rindo) Eu sou um ''soprano'' por aí, uma coisa meio estranha. Eu sou uma cantora com experiências diárias. Eu vou experimentando: se deu certo bem, se não deu paciência. A única coisa que eu tenho contra o crítico não é a opinião dele. Eu tenho medo quando os críticos falam de uma certa forma com o ator, a atriz, cantor ou cantora que possa fragilizar a sua essência artística e com isso fazer com que o artista perca o emprego. Já pensou o que é perder o emprego? É muito sério. Disso tenho pena e medo.

Já que tocou no assunto, você tem medo de passar pelo crivo da crítica como cantora já que como atriz você é muito querida e respeitada?
Depende de quem critica. Se vem de alguém que realmente entende alguma coisa a crítica é válida. É uma questão de gostar! Se a pessoa não gostar da minha voz, não posso fazer nada: é aquela que está no disco e acabou.

Você se aproximando das gravadoras de disco se distancia cada vez mais da TV e do cinema. Alguma cisma com esse dois veículos?
Ah, eu não gosto de me ver na tela.

Sério, Bibi?
Sério. Eu não me olho no espelho, acredite se quiser.

Mas você me parece tão vaidosa, Bibi Ferreira!
(risos) Essa é que muito boa... Quando, de noite, vou fazer minha higiene no banheiro lavar os olhos, sofro muito das vistas, tem que lavar com água, gel e aquelas coisas todas e vou escovar meus dentes e passar fita dental, sabe como eu faço isso? No escuro.

Ah, Bibi!?
'Ah, Bibi' o quê! No escuro, sim. Às vezes eu saio de casa e a empregada diz assim: ''não penteou atrás'' (risos)

Numa entrevista ao Jô Soares, você se dirigiu à platéia, em determinado momento e disse: ''minha velhice é permanente, mas a juventude de vocês é provisória''. Você é muito sábia e isso é também sinal de elegância...
Pois é... Imagina uma mulher passar o dia inteiro, a noite inteira nesse negócio de ''physical'', cheia de dieta...Só pensam no físico? Eu fico pensando o que essas mulheres agora com 20, 30 anos vão fazer quando o corpo delas chegar aos 50, 60. Vai cair tudo!. Então para quê tudo isso?.

Mas cirurgia plástica você fez, me desculpe a indiscrição...
Fiz. Fiz lifting no rosto e muito tempo atrás nariz, na ligação da testa com o próprio nariz, que era muito entrado e fazia com que a fisionomia na fotografia ficasse mais dura. Não fiz mais nenhuma plástica. Eu não posso dizer que tenho 83 anos de idade e estar com a cara de 20, entendeu? Tenho a idade que tenho e pronto.

Se o presidente Lula te convidasse para dançar um tango, você aceitaria?
(irônica) Claro, eu dançaria como o Al Pacino, que dança cego! (Ela faz alusão à clássica cena do tango no filme ''Perfume de Mulher'', de 1992, em que o ator interpreta um militar que não enxerga).

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