Bate forte o tambor
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de fevereiro de 1997
Da Redação com agências 
Timbalada: arrastão sonoro leva batida do candomblé ao CarnavalÉ bem provável que neste exato momento um novo tipo de dança tenha tomado conta do carnaval da Bahia. E os responsáveis por isso são os integrantes dos incontáveis trios elétricos que há vários dias - é impossível precisar quando começou extra-oficialmente a folia baiana - vem arrastando pelas ruas de Salvador perto de 1,5 milhões de foliões de várias partes do Brasil e grande parte de turistas do mundo todo. Ou seja, uma coreografia diferente é o suficiente para que os foliões repitam imediatamente.
Até agora, as sensações são a dança do cachorrinho (em que um dos passos imita o cachorro levantando a pata para urinar), a da tartaruga (com as mãos imitando os movimentos da nadadeira do animal) e o sanduíche (um grupo de pessoas que se colam umas as outras e chacoalham para frente e para trás). Outras danças certamente surgirão nas próximas horas.
Os trios elétricos mais conhecidos têm, obrigatoriamente, que trazer alguma estrela do axé-music. Neste ano, as principais atrações do carnaval baiano são o grupo É o tchan (ou Gerasamba), Timbalada (com Carlinhos Brown), Chiclete com Banana, Margareth Menezes, o trio elétricos de Armandinho, Dodô e Osmar e, obviamente, Daniela Mercury.
Trata-se de uma constelação que só não é ofuscada pelos tradicionais blocos afros como o Olodum e Ilê Ayiê, Muzenza e Malê de Balê que, além da beleza, servem de oásis para quem não aguenta mais pular ao som dos trios elétricos. Na sua passagem sábado de madrugada o Ilê Ayê, por exemplo, arrancou aplausos de gente famosa como a cantora Marisa Monte, a atriz Fernanda Torres e o produtor musical Arto Lindsay que se misturaram à população do Curuzu.
O bloco é hoje o maior símbolo da resistência negra à invasão da axé music e ao esquema empresarial dos blocos de Carnaval - que cobram até R$ 750
reais para que os foliões tenham direito de dançar protegidos do resto das pessoas por cordas e seguranças.
Loira cansadaPor mais resistência que haja por parte de tradicionalistas, o carnaval da Bahia é sinônimo de Axé Music. A cantora Daniela Mercury que o diga. Ela foi a responsável por alguns dos momentos mais radiantes do carnaval ao sair no bloco Crocodilo, no último sábado, ao cantar durante oito horas seguidas.
Daniela Mercury foi homenageada pelo Trio Elétrico de Armadinho, Dodô e Osmar no último sábado. Os músicos tocaram Rapunzel, sucesso do último disco da cantora. No domingo, o trio abriu o desfile dos 15 grandes blocos blocos baianos mas não conseguiu arrastar muita gente ao passar pelo palanque da Praça Campo Grande. É que o calor beirava 40 graus. No meio do caminho, Armadinho, Dodô e Osmar tocaram e cantaram com outra estrela baiana : o cantor Luiz Caldas.
O grupo É o Tchan é outro que está arrastando uma multidão às ruas. Entretanto, na última sexta-feira, a loira Carla Perez deu um susto nos fãs ao não aparecer no desfile do bloco Acadêmicas. O motivo: ela sentiu-se mal pouco antes da apresentação por causa da maratona de shows do seu grupo. O retorno radiante à cena momesca se deu no madrugada de segunda-feira, no desfile do Salgueiro, no Rio de Janeiro. Ela saiu como um dos principais destaques da escola.
De lá, ela voou direto o carnaval de Salvador onde saiu no trio As Muquiranas que desfilou anteontem. Mesmo simpática com o público, Carla Perez apresentou visíveis sinais de cansaço - ele bocejou diversas vezes.
Amado JorgeO momento mais emocionante e badalado do carnaval baiano foi a passagem do bloco Amigos do Jorge, uma iniciatica de artistas plásticos baianos em homenagem ao escritor Jorge Amado. Foi no último sábado. O desfile do bloco reuniu personalidades políticas e artistas.
O trio elétrico, puxado por Caetano e pela cantora Margareth Menezes, chegou ao bairro Campo Grande cantando o tema do filme Tieta do Agreste. Tieta é, aliás, a personagem-símbolo do Carnaval baiano deste ano. No Amigos do Jorge, a atriz Regina Dourado, representou Tieta e os artistas locais se fantasiaram de personagens de Jorge Amado.
O homenageado assistiu à passagem do bloco de um camarote. Amparado por sua mulher, a escritora Zélia Gatai, Jorge Amado não conseguia cantar, apenas acenava. Já o senador Antônio Carlos Magalhães estava no camarote oficial da Prefeitura de Salvador. Acompanhavam-no o prefeito Antônio Imbassahy, o governador da Bahia, Paulo Souto, o deputado Sarney Filho (PMBD-MA), e o economista Francisco Graziano.
A cantora Margareth Menezes se referiu a ACM como um dos motivos de maior orgulho da Bahia. Caetano Veloso não fez qualquer menção à presença do senador, mas pediu uma salva de palmas para Jorge Amado.


