Maranúbia Barbosa
De Guarapuava
Especial para a Folha2
Enquanto Florípedes, a princesa cristã, presa por um sultão permanece no castelo mouro, a batalha campal toma corpo. Cavaleiros cristãos, protegidos por malhas finas e elmos, empunham lanças e espadas e lutam pela libertação da princesa, devidamente sacralizados pela Igreja feudal. Do lado oposto a lua crescente, símbolo do Islã, ornamenta os trajes dos invasores. Eram os mouros que invadiam a Península Ibérica e lançavam-se ameaçadoramente sobre aqueles a quem chamavam de infiéis.
No último final de semana cavaleiros feudais travaram mais um embate. Desta vez o palco da luta foi Guarapuava, localizada no Terceiro Planalto da região central do Paraná. A cidade reviveu o espetáculo das Cavalhadas, festividade portuguesa que teve origem nos torneios medievais, servindo como treinamento nos intervalos das batalhas e às práticas de galanteria nas cortes e meios fidalgos. Cerca de 15 mil pessoas compareceram ao Parque de Rodeios do Centro de Tradições Gaúchas Fogo de Chão e assistiram a um espetáculo sem precedentes no Sul do País que contou atores do grupo Art e Manha e cerca de 300 figurantes. Ao som de pífaros, no melhor estilo da música medieval, o público teve oportunidade de aprender com arte um dos mais importantes episódios da história mundial. A região da Europa onde atualmente se localizam Portugal e Espanha presenciou a Jirad (Guerra Santa), e reuniu reis e súditos de diferentes locais da Europa em torno de um único objetivo: expulsar os mouros (árabes) que queriam expandir o islamismo e conquistar novos territórios.
A partir do ano 771, cavaleiros cristãos combateram os mouros, que finalmente foram expulsos depois de quatro séculos. Os árabes deixaram ao Ocidente uma herança rica: conhecimentos na astronomia, na matemática, na química moderna, entre outros. A arquitetura é o ápice da arte islâmica, e pode ser vista em monumentos como a mesquita de Alhambra, na Espanha. Os colonizadores portugueses trouxeram a tradição do combate entre cristãos e mouros para Guarapuava, que teve as primeiras Cavalhadas em 1885. Organizadas sobretudo pela administração municipal, as Cavalhadas passaram a ser encenadas anualmente, ficando suspensas por alguns períodos. Depois do último torneio, que aconteceu em 1988, alguns admiradores resolveram se unir e produzir novamente o espetáculo. Criaram no início de 1999 a Ordem dos Cavaleiros de Guarapuava, que mereceu especial atenção da prefeitura na organização do evento. O prefeito Vitor Hugo Burko, inclusive, participa da festa como um cavaleiro cristão. O vice-prefeito é cavaleiro mouro.
O presidente da Ordem dos Cavaleiros, Ney Caldas, conta que o primeiro passo para a organização das Cavalhadas foi levar os conhecimentos históricos para as escolas. Professores e estudantes divulgaram as idéias e toda a comunidade guarapuavana foi envolvida. Desde o início do mês as casas penduram nas janelas os estandartes com os símbolos da cruz e da lua crescente. Segundo Caldas, apesar de os cristãos terem vencido a batalha final na Península Ibérica, as Cavalhadas de Guarapuava não pretendem mostrar o maniqueísmo. Os cristãos libertam a princesa mas o sultão se apaixona por ela, numa verdadeira apologia à tolerância. A vitória é do povo da cidade, que ganhou conhecimento e presenciou um show de arte e beleza.Em clima teatral, Guarapuava reviveu as batalhas medievais em evento que reuniu 15 mil pessoas
Maranúbia Barbosa/ DivulgaçãoUm cavaleiro mouro e a princesa cristã, Kelly Back, que participou de provas de equitação antes de ser escolhida para interpretar a personagemMaranbúbia Barbosa/ DivulgaçãoO Parque de Rodeios do Centro de Tradições Gaúchas de Guarapuava serviu de cenário para as ‘‘batalhas’’ a céu aberto

mockup