Xandin, quer que o rap local seja valorizado:"Tem muita gente boa em Londrina"
Xandin, quer que o rap local seja valorizado:"Tem muita gente boa em Londrina" | Foto: Fotos: Gustavo carneiro



Hip Hop. Subcultura que teve início na década de 1970, nas áreas centrais de comunidades jamaicanas, latinas e afro-americanas da cidade de Nova Iorque. Conhecido até hoje como instrumento de união - o hip hop surgiu em um contexto social de violência e criminalidade nesses bairros - e a única forma de lazer possível para os jovens nas ruas. Eles encontraram na música, poesia, dança e no grafite um modo de expressão de sua realidade e de contestação.
Musicalmente, o berço do hip hop brasileiro é São Paulo, onde surgiu nos anos 1980, nos encontros na rua 24 de Maio e no Metrô São Bento. Lá os artistas faziam sua performance para quem passasse pela rua e estivesse disposto a contribuir. Destes encontros, saíram nomes como Thaíde, DJ Hum, Racionais MC's e Rappin Hood, até hoje aclamados por todo o país.
Em Londrina, a cultura também está presente e não há quem não tenha ouvido falar das Batalhas da Concha. Realizadas, em seu princípio, na Concha Acústica, todas as sextas-feiras, agora as batalhas acontecem no Zerão, outro ponto de encontro importante da cidade. Embasadas no estilo freestyle ou rap de improviso, as disputas surgiram naturalmente, a partir do interesse de pequenos grupos, como o de Washington Luis dos Santos, o W Mc, um dos fundadores do evento, que já ganhou duas batalhas estaduais e participou como finalista de duas nacionais: em 2008 e 2009. Ele, que está ligado ao hip hop há mais de 20 anos, conta que conheceu essa cultura através do irmão. "Eu fazia capoeira e ele, que hoje é pastor, era dançarino B-Boy. Quando eu vi ele na roda, achei interessante justamente por misturar alguns movimentos e manobras que se parecem com a capoeira. Comecei brincando e logo aprendi a dançar". Depois do contato com a dança, W não demorou muito para se encantar também com o rap freestyle, praticado na época, por um amigo do irmão. "O cara era bem sarrista, chegava brincando com você e rimando. Eu me perguntava: ‘poxa, como esse cara faz isso? Quero aprender’". A partir daí, começou a treinar e entrou no primeiro grupo, o OZP, que era voltado à música gospel. Na sequência passou pelo Tribunal X, com os amigos Eliel, Pinduca, W-Lei e Dj Adriano e também formou, com a Mc Lilian, que hoje mora em Florianópolis, "A Dupla", um projeto baseado no grupo paulista SNJ. "Era um período de muita troca. A pessoa que fazia rap, também sabia fazer um beat box. Quando um queria mostrar a música que fez para o outro, um fazia o beat box para o outro cantar. Isso era muito legal", relembra.

Mina Doin começou a fazer rap aos 13 anos e, aos 16, já tem um álbum lançado
Mina Doin começou a fazer rap aos 13 anos e, aos 16, já tem um álbum lançado



BOOM DO MOVIMENTO
Nos anos 2000, o movimento se fortaleceu na cidade. Alguns festivais começaram a ser realizados, assim como palestras e capacitação sobre a cultura do hip hop. Dessas palestras e cursos, surgiu a Casa do Hip Hop. "Era lá que a gente se capacitava e começava a dar aulas. Era tipo para ensinar a pessoa a ensinar. Por exemplo, a galera sabia dançar, mas não sabia transmitir esse conhecimento. Com as palestras esse objetivo foi alcançado e a gente se empolgou ainda mais".Dessa empolgação, naturalmente, surgiu a Batalha da Concha. "A gente queria treinar a todo momento, mas na sexta sempre tinha atividade na casa do Hip Hop e, para não atrapalhar, a gente resolveu fazer um som na Concha mesmo, um tipo de brincadeira". O pequeno encontro começou atrair olhares e após a divulgação de um vídeo das batalhas na internet – na época, através da rede social Orkut – tomou grandes proporções e se transformou no grande evento local que é hoje. Em 1 de maio de 2008, foi realizada a primeira Super Concha, já reunindo centenas de entusiastas do ritmo. "Na época, a gente não podia nem subir no palco, então improvisava e usava os bancos como palco", conta W. Hoje, o evento é de tal proporção, que acontece cinco dias da semana, em diversos pontos da cidade.

W Mc: um dos fundadores do movimento em Londrina, já foi finalista de batalhas de rima em nível nacional
W Mc: um dos fundadores do movimento em Londrina, já foi finalista de batalhas de rima em nível nacional



DESAFIOS NA PONTA DA LÍNGUA
Maite Doin, atualmente produtora e Mc, começou a participar de batalhas de rima em 2013, com apenas 13 anos de idade. Fato interessante é dizer que não eram as da Concha Acústica, e sim disputas realizadas online. "Nessa época ainda não tinha voltado a acontecer as Batalhas na Concha então o único meio que eu tinha era a internet mesmo. A gente se reunia num site e fazia as nossas rimas por lá. Em 2014, teve um anúncio na televisão, avisando do retorno das Batalhas que eu conheci por conta disso", conta. Logo no primeiro ano frequentando o evento, Maite ganhou a primeira Batalha. "Eu permaneci fazendo parte das disputas até o ano passado, depois me afastei e comecei a fazer somente música".
Com 16 anos e um álbum lançado (Insensatez de um Poeta), ela agora trabalha no próximo EP (Sobrevivendo ao Egito) e no lançamento de um videoclipe, programado para as próximas semanas de junho. Nesse meio tempo, ainda fez três shows no mês de abril e segue a programação para mais um em julho. "São poucos shows ainda, mas essa é uma caminhada em que as coisas vão surgindo com o tempo mesmo", reflete. Quando perguntada sobre o que a levou a se encontrar no rap, tão cedo, Maite diz que foi a criatividade. "Em qualquer tipo de música tem que ser usada a criatividade, mas no rap eu sinto que ela é usada de uma forma mais abrangente. Porque o MC que faz rap tem que usar sua própria levada, seu flow, fazer sua métrica, sua referência. As vezes têm que pesquisar até história, pra agregar no que vai falar". Ligada à poesia desde que consegue se lembrar, Maite aponta esse como outro caminho que a levou ao rap e só se preocupa com a falta de apoio que os artistas da cidade recebem da comunidade londrinense e também do poder público. "O público tem a mente bem fechada pra cena aqui. Só dão valor mesmo quando a pessoa já está há bastante tempo na cena, fazendo um barulho em outros locais, ou quando é Mc de fora, que vem pra cá fazer show, essa é a realidade. E exceto pelas Batalhas de Rima, o poder público não investe e nem apoia mesmo. Iniciativas individuais ou de apresentação, têm zero apoio deles".
Essa também é a visão de Alexandre Bittencourt Reis, o Xandin. "Eu vejo gente compartilhando música que o pessoal do eixo Rio-São Paulo produz, em vez de valorizar o trabalho dos MC’s da cidade. Tem muita gente boa aqui e a galera não apoia. A gente acaba vendo que o rolê do rap aqui é você por você. Apoio mesmo, só da galera que também produz som e sabe o quanto é difícil".
Alexandre participava semanalmente das Batalhas da Concha e frequenta agora as do Zerão. Além disso, já fez parte de um grupo de rap, com mais dois amigos, o Tripartite. O grupo se separou há algum tempo mas, segundo ele, um dia se encontrará novamente. "Foi uma época muito boa, mas a gente acabou se distanciando, pra cada um buscar o crescimento próprio, sabe? Eu sei que logo a gente vai se reunir de novo e construir algo bom. Esse tempo é um tempo de evolução pra cada um de nós".
Mas não é de hoje que ele tem os pés no caminho musical. Desde pequeno, por influência do pai e irmãos, o Mc se viu cercado por música – em um primeiro momento, rock, MPB e reggae e, durante a adolescência, o rap de essência de grupos como Racionais Mc’s e Facção Central. Alexandre conta que aos 15 anos se viu envolvido à cultura do rap de improviso e, de lá pra cá, nunca mais se afastou. "Eu comecei nas batalhas meio na zoeira mesmo, sabe? Brincando. E com o tempo eu fui evoluindo um pouco mais". Sobre o futuro, o pensamento dele se divide em dois caminhos: a música e a faculdade. Quanto à música, o caminho já está sendo trilhado - "meu sonho é gravar meu trabalho, fazer um EP, misturando o rap e teatro, talvez. Seria um lance tipo purgatório, céu e inferno. Abordando o tema da espiritualidade, da essência da vida. Eu tenho estudado bastante, pra aprender a fazer um beat de qualidade. Mesmo que demore, eu quero dar o meu melhor pra produzir um som de verdade, um som de conteúdo". Já na carreira acadêmica, assim como qualquer outro jovem, a indecisão toma conta de suas escolhas no momento. "Eu comecei a fazer Engenharia da Computação mas não me identifiquei. Agora pretendo prestar o vestibular novamente, mas ainda tô indeciso entre Filosofia ou Engenharia Elétrica. Quando paro pra pensar, vejo que a Filosofia talvez se pareça mais comigo, porque eu vejo muito da Filosofia no rap, mas ainda não consigo ter certeza se é o que quero", conta, aos risos.

mockup