BASTIDORES - Por trás da cortina
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de maio de 2008
Francismar Lemes<br>De Umuarama para a Folha2 
O palco de atuação deles é o mesmo do elenco das grandes companhias convidadas para o Festival Internacional de Londrina (Filo), porém, eles deixam a cena minutos antes do espetáculo começar. São técnicos de som e iluminação, produtores, montadores de cenários, carregadores, pessoal de limpeza - um batalhão de gente atrás das cortinas e que contradiz os que ainda não acreditam que a cultura também é geradora de renda. Know-how que já é exportado para outras mostras e festivais.
Nos 40 anos do Filo, uma trajetória contada por grandes nomes do teatro universal, entre quais Kazuo Ohno e Odin Teatret, a experiência no trabalho de montagem e desmontagem da estrutura necessária para alguns espetáculos - o Teatro Ouro Verde já foi preparado para receber toneladas de terra em outras edições - é reconhecida por eventos, como a Mostra de Dança Contemporânea Unipar, que termina hoje em Umuarama e Toledo.
Uma equipe enxuta e 100% londrinense conseguiu dar conta dos 10 dias de duração do evento em que 12 companhias do Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais se apresentaram.
O trabalho desse pessoal não é fácil. Quando os refletores são acesos no palco ninguém imagina, por exemplo, que parte da equipe saiu de Umuarama às 6 horas, enfrentando uma viagem de duas horas até Toledo para montar o cenário e a iluminação do espetáculo B612 - O essencial é invisível aos olhos, da Focus Cia de Dança, do Rio e Janeiro. A apresentação terminou por volta das 21 horas, horário em que o elenco de técnico entrou novamente em cena. Depois da viagem de volta, que terminou de madrugada, os técnicos acordaram cedo de novo para mais uma maratona.
Há sete anos, Bruno Oliveira trabalha como técnico de som e por dois anos vem atuando como assistente de iluminação no Filo. A oportunidade de participar de festivais como o Filo abre portas para outros trabalhos. O festival londrinense é uma vitrine, afirma.
O coordenador geral da Mostra de Dança Contemporânea Unipar, Alessandro Antonio da Silva, destaca que a edição 2008 do evento dobrou em relação ao ano passado, que teve apenas cinco companhias se apresentando. O público também deve superar o número de 5 mil pessoas da mostra de 2007.É um trabalho de formiguinha. Dar mais nível a um evento demanda profissionais mais capacitados. Os grandes festivais no Brasil, no início, também foram buscar experiência nos que já tinham mais estrada, avalia Silva, lembrando que a mostra naquela cidade também gera renda no município ao movimentar hotéis e restaurantes.
Os técnicos de som e iluminação sofrem para dar conta da montagem dos espetáculos, mas os produtores também têm a sua parcela de sofrimento. Está certo que nos festivais brasileiros os elencos não exigem um camarim cheio de rosas e centenas de toalhas brancas, como fazem algumas celebridades, mas, enquanto os atores ou bailarinos esperam pelo palco, degustam alguns quitutes. Pergunte a um produtor se sobra tempo para ele fazer isso.
Produtor é mais ou menos pau para toda obra. Rosane Brandão Dornelles, por exemplo, já trabalhou na administração do espaço do Teatro Ouro Verde, na bilheteria, o que deve acontecer nesta edição do Filo. Na mostra de Umuarama e Toledo, é responsável pela produção de transporte. Se não fosse pelo trabalho dela, o pessoal da técnica de som e iluminação não daria conta de estar, praticamente, em dois lugares ao mesmo tempo - a mostra está sendo realizada nas duas cidades do Noroeste do Paraná simultaneamente.
Apesar da trabalheira e da correria atrás de tudo o que é necessário para que no palco tudo dê certo, Rosane acho o trabalho muito simples, não escapando, porém, de algumas situações curiosas, como a exigência da Companhia Marcela Reichlt, de Florianópolis (SC), que precisa ter em cena 150 algodões-doces. Além de achar alguém num final de semana prolongado, que possa fazer a guloseima, ela também precisa encontrar uma maneira de manter o doce intacto até a hora da apresentação. Quando o público assiste o espetáculo no palco, não tem noção do trabalho. É água que vai para o camarim, lanche, receber o público... conclui Rosane, já pensando em tudo que ainda tem para fazer.


