'Bastardos' de Tarantino vai a Cannes
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
O site oficial do Festival de Cannes (www.festival-cannes.org) ainda não estampou nada a respeito em sua front page, mas o boato já se espalhou por sites, orkuts, blogs e assemelhados - somente via google já são mais de seis milhões de bisbilhotices, toda a cinefilia de plantão em busca da mais nova ''tarantinice'', que atende pelo título de ''Inglorious Basterds'', assim mesmo, com e no lugar de a, a grafia correta em inglês. Mas transgressão a mais, outra a menos não fará diferença. Falam mal, mas falem etc, etc.
É disto que vem sobrevivendo o cinema de Quentin Tarantino, desta prévia efervescência que as mídias - oficial, underground, rastilho de pólvora, mexeriqueira, real, fake - transformam, voluntária e/ou involuntariamente, em explosivo material de marketing, disponibilizando fotos, trailers, meias verdades, meias mentiras, gossips e o que mais servir para manter acesa a curiosidade. Aquela velha história: não importa o que vai estar lá na frente, na telona, quando o filme subir o tapete vermelho de Cannes entre 13 e 24 de maio próximo - e aí o enfoque, a pegada crítica será um outro departamento nada cúmplice. Importa neste momento o registro do percurso até lá, este tempo de festa especulativa, de produção de pós modernidade pop, de jogo de adivinhações alimentando todos os dias a curiosidade da tietagem.
Alimento como esta matéria que você está lendo aqui e agora: a noticia é a boataria sobre Cannes, mas de quebra você leitor pega uma carona informativa (se é que já não sabe tudo e mais um pouco...) sobre o que é afinal este projeto que não se sabe bem ao certo em que fase se encontra, mas provavelmente encerrando filmagens para entrar imediatamente em pós-produção. Mas onde e quando então história bastarda começou ?
Bem, na cabeça de Tarantino, sempre congestionada por imagens de todos os tempos, todos os gêneros e todas as nacionalidades, o início está lá (ou ali) nos anos 1970, quando espanhóis e italianos voluptuosamente produziam em série exemplares da chamada série B, bê de budget, orçamento em inglês, barato, muito barato. Um enxurrada de títulos com significado, destinação e qualidade muito precisos: entretenimento popular preferencialmente de gosto duvidoso. Aquele modismo agora completou três décadas, e dá-lhe nostalgia. O culpado por esta exumação ? Claro, Quentin Tarantino. Uma coisa não se nega a ele: o talento real para produzir, sem maiores comprometimentos/constrangimentos ideológicos ou choques estéticos, uma mélange, uma mescla, um cadinho, uma mistura, um mix, uma geléia geral que faz o convívio harmônico de gêneros.
Neste projeto, seu modelo reescrito e refilmado é um filme italiano de Enzo G. (de Girolami) Castelari intitulado ''Quel Maledetto Treno Blindato'', de 1978, rebatizado em inglês na versão internacional como ''Inglorious Bastards'' - no Brasil chamou-se ''O Expresso Blindado da SS Nazista'', e com absoluta certeza foi exibido com sucesso de público numa das cinco salas centrais (vale dizer, de rua) que funcionavam na época em Londrina. Confrontadas as sinopses de ontem e de agora, não se trata de um remake em regra. Mas da trama tresloucada Tarantino não abriu. Ou ele não se chamaria Tarantino.
Grosso modo (e engrosse bem este modo), trata-se daquela ideia que o cinema hollywoodiano alimentou em filmes como ''Os Doze Condenados'', de Robert Aldrich, ''Os Guerreiros Pilantras'', de Brian Hutton e ''A Brigada do Diabo'', de Andrew V. McGlagen. Um grupo de homens de caráter duvidoso, movidos a recompensa e sem nada a perder é reunido em tempo de guerra para cometer façanhas formidáveis com perfil suicida. Na concepção de Tarantino: durante a ocupação da França pelos alemães, a jovem Shosana (!) Dreyfus (!!) presencia a execução da família por um coronel nazista. Em Paris, ela se esconde sob nova identidade, agora como proprietária de um cinema.
Enquanto isso, em outro canto da Europa, o tenente Aldo Raine, vulgo Aldo o Apache (Brad Pitt), organiza um grupo de oito soldados judeu-americanos para explodir objetivos alemães. Conhecidos como ''basterds'', os homens de Raine se unem à atriz Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), agente secreta que trabalha para os aliados. Juntos, empreendem uma missão que pretende a queda dos líderes do III Reich. O destino, guiado pelos neurônios rocambolescos de Tarantino, fará com que todos se encontrem sob a marquise do cinema parisiense de Shosana, a vingadora.
Com locações na França e Alemanha, a produção é bancada pelos irmãos Weistein, Bob e Harvey, habituais financiadores do cineasta. O orçamento, diz a lenda recentíssima, já estourou algumas vezes. E antes da estreia mundial, em Cannes, muita novidade ainda vai correr por conta deste filme que já nasceu um evento.


