São Paulo, 27 (AE) - Depois da pré-estréia em uma mostra de filmes sobre os Bálcãs, entra hoje finalmente em cartaz "Barril de Pólvora", do diretor sérvio Goran Paskaljevic. "Bure Baruta", no original, foi uma das sensações do Festival de Veneza do ano passado, onde se apresentou em uma das mostras paralelas. Deu mais o que falar que muito filme participante da competitiva. Tem todas as condições para criar polêmica, porque, conforme o título, é mesmo uma obra explosiva.
A começar pela localização da trama - Belgrado - cidade devidamente satanizada pela mídia ocidental. A crise aparentemente permanente dos Bálcãs (uma contradição em termos) acaba por criar situações bipolares, maniqueístas. Há sempre, como na série "Guerra nas Estrelas", os bons e os maus, os justos e os pérfidos, os chamados e os eleitos. Agora são os sérvios, sob Milosevic, e com o genocídio dos kosovares em seu passivo, que assumem o papel de maus. Qualquer um que tenha ultrapassado a infância política sabe que a situação é infinitamente mais complexa. E alguns filmes, "Barril de Pólvora" entre eles, podem ajudar a esclarecer um pouco esse imbróglio secular.
Obra de arte não é ensaio sociológico. Pode inclinar-se por esta ou aquela posição, mas não tem obrigação de apresentar um discurso unívoco e bem-argumentado e racional sobre o que quer que seja. Causa uma impressão, comove e ajuda a abrir os olhos, sobretudo se permite uma leitura aberta.
Não por acaso os filmes mais recentes sobre os Bálcãs colocaram até agora sua ênfase sobre Sarajevo, porque era lá o epicentro das atrocidades, mudadas agora para Kosovo. "Barril de Pólvora" é o ponto de vista de Belgrado. Mas não o ponto de vista oficial. Fala de gente comum, que sofre com a angústia e com a violência. Não se verá em Paskaljevic nem um único traço de nacionalismo sérvio ou qualquer elogio a uma duvidosa purificação étnica. Mesmo porque seu filme é adaptação de uma peça homônima do dramaturgo Dejan Dukovski, que é macedônio. Isso dá bem idéia do caldeirão étnico e das tensões geográficas da região.
Do texto, escrito pelo macedônio e colocado no celulóide pelo sérvio, emerge uma Belgrado noturna, agressiva, tensa. Tudo se passa à noite. Numa única noite, com histórias e personagens que se cruzam. Tramas paralelas, que às vezes se encontram. Tudo contribui para que o ambiente tenso suba em temperatura e pressão até tornar-se insuportável. São pequenas coisas, detalhes para um observador imparcial. Há o ônibus que não sai no horário, com o passageiro punk aproveitando a oportunidade para infernizar os outros; o homem que confessa ter transado com a mulher do melhor amigo; o policial que abusou do poder e depois se reencontra com a vítima num bar infecto etc.
Belgrado é uma cidade cercada. Não se fala muito da guerra propriamente dita. Ela é filtrada para a trama pelo noticiário do rádio que se ouve no carro, pela televisão ligada no bar. Notícias ao longe. A guerra, de fato, está instalada em cada um . Está entre as pessoas. Na cidade isolada, a regra é o auto-centramento. Cada um por si, Deus contra todos. Por isso os encontros são raros, difíceis. E, em geral, terminam pela via da violência.
Não se trata de um retrato muito otimista. Felizmente, para o espectador, a pintura dantesca de "Barril de Pólvora" é aliviada por um senso agudo de humor negro. E por toques de nonsense. Nem por isso o mal-estar deixa de existir. Guerra de todos contra todos, um universo hobbesiano. Um retrato dos Bálcãs e não apenas de Belgrado. Barril de Pólvora. Drama. Direção de Goran Paskaljevic. Com Lazar Ristovski, Miki Manojlovic. Duração: 100 minutos. Distribuição: Pandora Filmes

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