BARRADOS NO AEROPORTO Vai para os EUA? Cuidado com o visto
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quarta-feira, 19 de novembro de 2003
Herton Escobar<br> Agência Estado 
São Paulo - Com mais de 20 viagens carimbadas no passaporte para participar de congressos e conferências nos Estados Unidos, a cardiologista Márcia Barbosa não esperava ser barrada na imigração americana. Muito menos ser trancada em um banheiro e interrogada por quase 13 horas antes de ser mandada de volta para o Brasil, escoltada por policiais armados. Seu crime foi tentar entrar no país para um congresso profissional usando visto de turista (B2), quando o obrigatório seria o de negócios (B1). Indignada pela maneira como foi tratada, Márcia divulgou uma carta na internet alertando outros viajantes desavisados.
''O mais grave é a arbitrariedade'', disse a médica à reportagem. ''Com esse mesmo visto já entrei dezenas de vezes nos EUA, sempre dizendo que viajava para congressos e nunca fui advertida de nada. Como poderia saber que estava com o visto errado?'' Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, a imigração americana ficou muito mais rigorosa, mas nem todos os viajantes estão informados adequadamente para evitar problemas nos aeroportos.
Assim como Márcia, que iria participar de um curso de três dias sobre ressonância magnética do American College of Cardiology, em Chicago, são muitos os médicos, empresários e cientistas que viajam para reuniões e eventos nos EUA com visto de turista. Só no vôo dela, via aeroporto de Dallas, no dia 18 de outubro, um outro médico e dois empresários também foram detidos e enviados de volta ao Brasil, pelo mesmo motivo. ''Falei com uma funcionária da empresa aérea e ela me disse que, em média, quatro pessoas são mandadas de volta todos os dias.''
Representantes do setor de viagens esclarecem que o visto, mesmo que correto, não é garantia de entrada em país nenhum. ''É apenas uma triagem prévia de embarque'', diz o diretor-presidente da Brazilian Education & Language Travel Association (Belta), Eduardo Camargo. ''Os agentes de imigração têm plena autonomia para barrar qualquer viajante.''
O incidente em Dallas levou o presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Juarez Ortiz, a enviar uma notificação a todos os sócios para que verifiquem seus vistos antes de viajar. ''Repudiamos veemente os atentados sofridos pelos americanos, mas isso não lhes dá o direito de agir da maneira com agiram, destratando viajantes legítimos'', disse Ortiz. Segundo Márcia, ela e os outros passageiros barrados foram levados para uma sala e ''interrogados como verdadeiros criminosos''.
''Tiraram nossa foto e impressões digitais'', conta a médica, em sua carta. ''Aí, eu e a outra brasileira fomos trancadas em um banheiro frio, em que havia um banco duro para sentar, sem podermos levar nossas bolsas, laptops ou mesmo um livro, ao lado de uma acusada de traficar pessoas para os EUA.''
Durante as 13 horas em que ficou retida na imigração, Márcia só teve autorização para fazer uma ligação e sair uma vez, para comprar comida, escoltada por policiais. Seu visto de turista foi cancelado e ela só recebeu de volta a bagagem quando pousou no Brasil. ''Sempre achei que esse negócio de 'danos morais' era um bobagem, mas agora entendo perfeitamente o que isso significa'', disse a médica. ''Não penso em voltar aos EUA nunca mais. Eles tinham o direito de me barrar, mas não de me humilhar.''


