Barítono Juan Pons protagoniza "Rigoletto" em SP
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domingo, 08 de agosto de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 09 (AE) - Os tenores verdianos podem até se dar ao luxo de filosofar que as donas são mobiles, mas o compositor foi implacável com os seus queridos barítonos, para quem sempre escreveu partes que exigem doses wagnerianas de dignidade e autoridade, em geral concentradas no corpo, às vezes disforme, de algum pai sofredor. "É fazendo essas figuras, com as quais me identifico, que me realizo completamente como cantor", explicou à reportagem o barítono espanhol Juan Pons, o protagonista de "Rigoletto", de Verdi, na montagem do drama do corcunda (ausente dos palcos paulistanos há 20 anos), que estréia no Municipal no dia 19, na série dos "Patronos do Theatro Municipal".
Quem teve a sorte de ouvir Pons, no ano passado, em São Paulo, cantando duas árias da ópera, sabe o que esperar. Como num desenho do Pernalonga, seu vozeirão balançou o cabelo daqueles que estavam até a quarta fileira do teatro. Nascido numa ilhota mediterrânea, Menorca (onde mora até hoje), Pons, filho de um apaixonado por zarzuelas, iniciou seus estudos de canto aos 8 anos, num coro de igreja. Numa turnê ao continente, passaram por Barcelona, quando seu talento foi reconhecido por empresários do célebre Teatro Liceu. Acreditava-se baixo e até cantou algumas partes, mas ouvindo os conselhos da amiga Montserrat Caballé e do tenor Carlo Bergonzi deixou os graves profundos pelo brilho médio da voz de barítono.
"Foi um alívio, pois pude realizar a minha imensa paixão por Verdi e, desde então, me imponho a regra de só cantar aquilo que amo", diz. "E, graças aos céus, não é pouca coisa: basta pensar em Nabucco, Rigoletto, Simon Boccanegra, "La Traviata" e, entre outros, em Falstaff, o meu favorito", conta. Foi como o rotundo conquistador que Pons venceu no templo italiano do Scala, em 1980, após sucessos iniciais na Cidade do México, em "Trovatore", "Ballo" e "Don Carlo". E começou sotile, sotile, ao lado de Lorin Maazel e sob direção de Giorgio Strehler. "Foi o meu trampolim para o sucesso internacional, um golpe de sorte que, com certeza, deve ter tido a mão de Deus sobre a minha garganta naqueles dias", lembra-se.
"Durante uns testes para um papel em "Pagliacci" percebi que o diretor do Scala não tirava os olhos de mim e, de repente, me pediu para cantar vozes diferentes em falsete até que, por fim, me avisou que eu estava contratado, aos 32 anos (todos me diziam que era uma temeridade enfrentar o personagem sem uma experiência maior) , para ser o Falstaff daquela temporada, algo de que me orgulho, pois foi a última produção da ópera em quase duas décadas no teatro", conta. Pons, um homenzarrão de mais de 2 metros, adorou o cuidado cênico de Strehler. "Em geral, os diretores não me ajudam em nada, apenas indicando que devo entrar pela direita e sair pela esquerda: é difícil ser ator com as minhas proporções sem ajuda de um regisseur cuidadoso".
"Strehler foi fantástico, pois trabalhava cada mínimo detalhe, como caminhar, de que forma dizer cada palavra e até como mover as mãos: durante horas ensaiamos o movimento de um dedo que acompanharia o sotile da ária "Quando Era Paggio", algo maravilhoso", comenta. "Acima de tudo, ele era um artista flexível para a discussão do personagem, o que não se encontra muito em diretores de ópera". Depois, vieram o Covent Garden, de Londres, a Staatsoper, de Viena, e o début no Metropolitan Opera House, em Nova York, em 1983, na Traviata, de Verdi. Daí, Pons chegou à TV e ao cinema, onde trabalhou com Mutti, Plácido Domingo, James Levine, Pavarotti, Stratas e Zefirelli, com quem fez Pagliacci, o seu segundo cavalo-de-batalha operístico. "São boas formas de levar o canto a um multidão que não teria condições econômicas de ir a um teatro para nos ouvir ao vivo".
Mas o cantor é um pouco reticente com excessos de popularidade, como os três tenores. "É um caso especial, pois só se fala do trio e não dos tenores e a crítica tem uma certa razão ao observar que se canta música popular mais do que ópera, que são apenas picadinhos de árias que nem sequer são cantadas individualmente, mas divididas entre os três", avalia. "Sou, porém, obrigado a confessar que, num concerto de três barítonos, que fizemos recentemente na Espanha, foi o Toreador, da "Carmen", de Bizet, com cada um cantando uma estrofe, o que mais agradou ao público", revela. "Assim sou obrigado a reconhecer que todos o que falam mal do trio de tenores, se têm a chance de fazer como eles, não a perdem", diz, rindo.
Pons deve chegar a São Paulo para os ensaios de "Rigoletto" até o fim desta semana, vindo de Menorca, para onde fugiu de todos os compromissos para passar o seu aniversário com a família. "Eles são o melhor de minha vida e preciso da tranquilidade da ilha e deles para poder enfrentar a maratona de compromissos: sou amoroso como um pai verdiano", avisa. "O compositor sofreu muito com a morte de seu pai e, mais tarde, da mulher e dos filhos; obcecado com essa questão de paternidade, descobriu que podia aliviar sua dor escrevendo partes para essas figuras com grande humanidade, encontrando na tessitura de barítono o veículo perfeito dessas emoções tão intensas e expressivas", analisa o cantor.
"São árias plenas de sentimento, em que a música acaricia, ternamente, as palavras desses desaventurados, como Rigoletto", continua. "Ele é um personagem complexo, aparentemente mau ao rir do sofrimento das vítimas do Duque de Mântua, mas é preciso lembrar que esse é seu trabalho, a sua chance de sobrevivência numa corte cruel, ainda mais para um homem, como ele mesmo diz, pobre e disforme", analisa. Nesse mundo de aparências e decadência, sobrou ao povero Rigoletto a filha, Gilda.
"Nem sequer a mãe da menina ele acredita capaz de tê-lo amado um dia de verdade, apenas por pena; já Gilda é o seu tesouro único, a fonte exclusiva de pureza numa vida que ele despreza", fala. "Se quer matar é por vingança, por desgosto paterno de ter a filha adorada raptada, estuprada e desonrada por esporte pelo sedutor: ao fazerem isso, tiraram-lhe a vida". Maledizione.
O cantor ainda não sabe como será contada a tragédia do bufão na montagem paulistana, mas só espera uma coisa. "Pode ser moderna ou tradicional, isso não importa; só desejo que respeite o texto e as intenções de Verdi, pois os sentimentos devem ser os mesmos, em qualquer contexto e com qualquer figurino ou cenário", acredita. Pons é, como todo bom artista de ópera, um apaixonado pelas emoções fortes e é com elas que se lembra de uma montagem de "La Forza del Destino", de Verdi, em Madri. "Dois dias antes, eu havia cantado "Simon Boccanegra" para o mesmo público e conseguira um sucesso surpreendente", lembra-se.
"No dia da estréia da outra ópera, porém, fui surpreendido com a notícia terrível de que a minha tia, a mulher que me criara, pois perdera minha mãe ainda menino, havia morrido e entrei em choque", continua. "Ainda assim, não cancelei a récita e, numa ária, desconcentrado, me perdi, emocionado com a morte", descreve. "Virei-me para a platéia e implorei perdão e, em meio a um silêncio respeitoso, alguém gritou: Não importa, Boccanegra", completa. "Aquilo foi maravilhoso - estou mesmo emocionado agora - e o carinho do público me fez ver que não somos máquinas." Bravo, Rigoletto. Serviço - "Rigoletto". àpera de Giuseppe Verdi. Direção musical e regência de Isaac Karabtchevsky. Dias 19, 21, 24, 25 e 26, às 20h30; dia 22, às 17 horas. De R$ 20,00 a R$ 80,00. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 222-8698. Até 26/8.


