Barganha musical com Gil Evans
''Certo dia de 1947, Miles foi parado uma noite na Rua 52 por um sujeito branco magro de chapéu e roupas de operário. Miles já o tinha visto em clubes, beliscando rabanetes secos salgados em saquinho de papel. O que ele queria de Miles era permissão para fazer um arranjo para big band de ''Donna Lee''. Era Gil Evans, um arranjador da Claude Thornhill Orchestra. A banda de Thornhill era uma espécie de anomalia. Numa época em que as dance bands eram inequivocadamente suaves ou quentes, Thornhill tinha cornetas, tuba, flautas e metais, tocando-os juntos com uma quase delicada combinação de impressionismo francês e melodrama de canção popular. O que Evans fazia com a banda de Thornhill quando ele foi ter com Davis era simplesmente ultrajante: ele estava tentando trazer as sensibilidades do bebop para essa quase fastidiosamente aristocrática orquestra.
Miles tinha acabado de ouvir a gravação de Thornhill para ''Robbins' Nest'', um arranjo de Evans de uma peça escrita por Illinois Jacquet e sir Charles Thompson para o disc-jóquei Freddy Robbins. Davis estava atônito com a sonoridade dos ''acordes como campainhas'' que eles produziram e quão relaxantes eram aquelas linhas melódicas como se a banda inteira estivesse tocando um solo de bebop não programado. Miles disse a um repórter da ''Down Beat'' alguns anos depois que ''Thornhill teve a maior das bandas, aquela que tinha Lee Konitz, durante aqueles tempos modernos. A única exceção era a banda de Billy Eckstine, com Bird (Charlie Parker)''. Davis não estava sozinho no seu deslumbramento com aquele grupo. Thelonious Monk e Duke Ellington também eram fãs daquela música. Miles disse a Evans que ele poderia usar ''Donna Lee'' se, em troca, ele (Miles) pudesse ter cópias dos arranjos de Evans para faixas como ''Robbins' Nest''. Evans tinha vindo para Nova York em 1946, sugado, como Miles, pela chama do bebop''.
(Trecho do livro ''So What, de John Szwed)





