ReproduçãoBrigitte
emprestou
um corpo
perfeito à
magnífica
metáfora de
liberdade
dos anos 60Sai no Brasil, pela Scipione, a polêmica autobiografia ‘‘Iniciais BB’’. Qualquer um, com 40 anos ou mais, sabe a quem pertencem as duas letras: a quem senão ao mais poderoso sex symbol jamais inventado pelo cinema, Brigitte Bardot, que, ainda em plena forma, abandonou as telas 24 anos atrás? Tinha 39 anos e poderia ter feito ainda muitos outros filmes. Deixou órfã toda uma geração masculina, foi cuidar da vida e fazer campanhas em defesa de animais.
Por que a polêmica em torno do livro? Simplesmente porque
Brigitte é franca até demais. Além de relacionar com desenvoltura toda a série de maridos e amantes que colecionou ao longo dos anos, fala abertamente de suas tentativas de suicídio e de outros temas incômodos, como a falta de vocação para a maternidade. Mas o pior vem mesmo quando expressa sua admiração por Jean-Marie Le Pen, líder da Frente Nacional, o partido da extrema direita na França.
BB diz-se admiradora do general De Gaulle, mas confessa simpatizar mesmo é com as idéias de Le Pen, em especial no que se refere ao capítulo imigração. Ela, como boa parte da população francesa, se sente incomodada com a presença de estrangeiros de pele mais escura em solo francês, em geral árabes, vindos de ex-colônias do país. Aliás, mês passado, Brigitte foi condenada a pagar multa por ‘‘incitação ao ódio racial’’, ao dizer que a França estava sendo dominada por ‘‘muçulmanos assassinos de ovelhas’’. Referia-se ao ritual de degola de carneiros de uma festa muçulmana conhecida por Eid-el-Kibir.
O livro causou problemas também em seara mais doméstica. Seu único filho, Nicolas Charrier, e o ex-marido, Jacques Charrier, a processaram. Numa das páginas, ela definiu Jacques como ‘‘macho vulgar’’. E acrescentou, em entrevistas de divulgação, a doce conclusão de que ‘‘preferia ter dado à luz um pequeno cão’’. Sabia-se, de longa data, que BB era cinófila (mais que cinéfila, aliás), mas poderia talvez ter poupado o filho do comentário. Enfim, os Charriers, pai e filho, ganharam na Justiça, mas não levaram o que pretendiam: US$ 1 milhão per capita. Tiveram de se contentar com bem menos. E viram recusada a reivindicação de que as páginas que se referiam a eles fossem cortadas das novas edições.
Portanto, o livro contém trechos que satisfazem o sadismo do público, sempre feliz em imaginar que mesmo gente rica e famosa também sofre. Às vezes, até mais que o comum dos mortais. Ocorre que‘‘ Iniciais BB’’ não é rosário de lamúrias. Muito ao contrário. Brigitte é uma das glórias da espécie e parece saber muito bem disso. Mesmo que, vez por outra, se apresente como pessoa modesta. Pode consolar o ego de algumas, e arrancar um sorriso de outras, saber que ela se considerou feiosa e tímida incorrigível ao longo da vida. Acredite se quiser. Esse traço de caráter _ a modéstia _ teria sido extremamente benéfico para sua carreira, principalmente no início, segundo interpretação dela mesma.
Uma carreira que, todo mundo imagina, começou com Roger Vadim e‘‘ E Deus Criou a Mulher’’, mas, na verdade, teve início bem antes. Como conta em suas memórias, a adolescente Brigitte, filha de uma família burguesa, entrou no Conservatório de Paris para tornar-se dançarina. Logo se tornaria um rosto conhecido ao posar para a revista de moda Elle. O caminho natural seria o cinema. Participou de alguns filmes inexpressivos como‘‘ Le Trou Normand’’, ‘‘Manina _la Fille Sans Voiles’’,‘‘ Trahie’’,‘‘ Le Fils de Caroline Chérie’’ e vários outros. Dezesseis, no total, sendo dois rodados na Itália.
Até que em 1956 veio ‘‘E Deus Criou a Mulher’’, estréia de Vadim, e dela mesma, se a biografia cinematográfica deve ser levada a sério. Mesmo porque, com esse título altamente enfático, se iniciava a nouvelle vague e também o mito Bardot. Era Vadim, seu Pigmalião, conduzindo-a aonde ela tinha de ser levada: ao encontro consigo mesma. Bardot tornou-se Brigitte e a sigla BB passou a designar uma única pessoa em todo o universo. Mulher-menina, falsamente ingênua, que tirava a roupa sem nenhuma malícia aparente. Prefigurou os anos 60, a onda de contestação, liberdade e o poder jovem. Que agora, do alto dos 63 anos completados em setembro, seja admiradora de um corifeu do conservadorismo, é uma das grandes ironias da História contemporânea.

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