Barão ficou esquecido por quase cem anos
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quarta-feira, 13 de outubro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 14 (AE) - O nome Irineu Evangelista de Sousa não é desconhecido por nenhum estudante de 2.º grau razoavelmente aplicado. Mais conhecido pelos títulos nobiliárquicos - barão, depois visconde de Mauá -, foi o grande empreendedor da época do Império. Construiu estradas de ferro, estaleiros, fundou o Banco do Brasil, iluminou o Rio de Janeiro. Imensamente rico, suas empresas chegaram a ter orçamento apenas comparável ao do País. Na época, era tido como visionário ou arrivista, pois viera do nada e se tornara poderoso. Hoje, é considerado um profeta, homem à frente do seu tempo, pois tinha visão empresarial em uma sociedade agropastoril e escravocrata.
Mauá viveu de 1813 a 1889. Nasceu em Arroio Grande, no Rio Grande do Sul, e logo ficou órfão de pai. Sua mãe se casou novamente, mas seu novo marido não queria saber de crianças. Casou prematuramente uma filha e o jovem Irineu foi mandado para o Rio de Janeiro, com 9 anos. Empregou-se em uma casa de comércio como caixeiro. Quando tinha 15, já era o funcionário de confiança do patrão. Aos 23 empregou-se na firma do escocês Richard Carruthers e, novamente, galgou a hierarquia da empresa até tornar-se braço direito do dono. A tal ponto que, quando Carruthers resolveu voltar para o seu país, deixou Irineu tomando conta do negócio.
Aos 30 anos, ele já era um dos homens mais poderosos do Império. A carreira de Mauá atravessou a Independência, o primeiro e o segundo reinados. Morreu com a monarquia brasileira
com a qual teve relacionamento ambíguo e por vezes tumultuado. Essa vida nem sempre ficou esquecida, mofando nos livros escolares. Em 1987, a Bianchi Editores lançou "Mauá, Empresário & Político", contendo vários ensaios e recuperando uma peça de caráter autobiográfico, "A Exposição aos Credores", escrita por Mauá em 1878, após a falência do seu banco. O livro teve boa repercussão na mídia.
Em 1995, acompanhando a voga de lançamentos de biografias pelas editoras brasileiras, o jornalista Jorge Caldeira publica seu "Mauá - Empresário do Império", volume de 557 páginas que se transformou em best seller, pelo menos para padrões brasileiros. Caldeira acompanha a trajetória do empresário em todas as etapas de sua vida. Da infância ao começo da carreira no Rio, da ascensão à queda, e depois à recuperação, antes da morte, ocorrida no apagar das luzes do regime monárquico. Traça o retrato de um homem de convicções bem definidas. No credo de Irineu Evangelista de Sousa, o mercado livre é o princípio de tudo; a concorrência, o grande instrumento para o desenvolvimento; o Estado ideal é aquele que nunca tenta interferir demais na atividade econômica. Mercado, concorrência
Estado mínimo. Uma plataforma liberal para o Brasil dos anos 90
das eras Collor e FHC, só que pensada há mais de cem anos. Mauá encarna o tipo idealizado do capitalista - aquele homem que, buscando o seu próprio bem (o lucro), acredita promover o bem geral. Não por acaso, transformou-se em patrono inconteste do empresariado nacional.
Filme - O longa-metragem de Sérgio Rezende, "Mauá - o Imperador e o Rei", mostra Irineu Evangelista de Sousa (Paulo Betti), novamente, como empreendedor ousado, à frente do seu tempo, homem incompreendido, idealista. Por meio da figura de um escravo, Valentim (Antonio Pitanga), alforriado pelo empresário, que ainda o ampara na hora da morte, marca a posição abolicionista do herói. O visconde de Feitosa (Othon Bastos) funciona como síntese da figura do mal, resumindo as intrigas e toda a oposição sofrida pelo empresário na corte de d. Pedro II.
A complicada relação política entre o empresário e d. Pedro aparece pintada em rápidos episódios. Transforma em quadros dramáticos a saga empresarial de Mauá, destinado agora a funcionar como paradigma e exemplo de uma hipotética modernização brasileira.


