BARÃO DÁ
O SHOW DE
LARGADA
Com show que mostra inovações, a banda Barão Vermelho começa em Curitiba a turnê nacional de lançamento de disco
Luiz Claudio Oliveira

Reprodução
Barão Vermelho: programação eletrônica e mudança de sonoridade marcam nova fase da bandaA banda Barão Vermelho começa em Curitiba, nesta sexta e sábado, a turnê de seu mais recente disco, ‘‘Puro Êxtase’’. Disco e show mostram algumas inovações, como a utilização de programação eletrônica e a busca de mudança de sonoridade.
Desde ‘‘Carne Crua’’, disco lançado em 1994, a banda Barão Vermelho não lançava um disco com composições próprias e inéditas. Parte por causa de uma ‘‘crise de abstinência’’ de composição por que passaram Frejat e Guto Goffi, os dois principais compositores da banda. Parte por uma estratégia de lançamento de regravações que foi muito bem-aceita pelo público. O CD ‘‘Álbum’’, por exemplo que trazia ‘‘reversões’’ do Barão para músicas de outros autores, foi o que mais vendeu na história do grupo, chegando à marca das 330 mil cópias.
Agora, vencida a crise e com a responsabilidade de manter em alta a vendagem de seus discos, o Barão volta com um álbum de composições próprias, mas com uma cara diferente. Assim como o U2 na esfera internacional, Frejat, Goffi, Peninha, Rodrigo Santos e Fernando Magalhães atacam na esfera nacional com a procura de uma sonoridade mais atual, tentando renovar o público ao mesmo tempo sem perder as características deste que é um dos principais grupos de pop-rock do país.
O disco ‘‘Puro Êxtase’’ acaba de ser lançado pela gravadora WEA e tem a produção de Marcelo ‘‘Mem꒒ Mansur, o mesmo que trabalhou com Lulu Santos, Claudinho e Bochecha e Gabriel, O Pensador. Apesar de ter sido convidado pelo grupo, a participação de Memê não foi imperativa. Ele teve que trocar muitas idéias com todos, chegando até a algumas diferenças de opinião mais sérias com o baterista Guto Goffi e o percussionista Peninha, os dois mais atingidos pelas ‘‘idéias eletrônicas’’ de Memê.
Diferenças à parte, salvaram-se todos pois o Barão conseguiu manter sua tradicional levada, muito dela baseada na força da cozinha. A entrada da eletrônica não conseguiu anular o caráter da banda que soube se impor ao mesmo tempo em que também soube deixar as influências entrarem em busca de renovação. O resultado é mais um bom disco de rock brasileiro do Barão Vermelho.
O show, que acontece na Forum, abrindo a turnê nacional do grupo, vai mostrar se a banda vai manter o mesmo pique que sempre apresentou no palco ou se ficará um pouco encabulada ou engessada com os loopings eletrônicos que permearão um terço do espetáculo, como conta o baterista Guto Goffi em entrevista à Folha2, por telefone.‘‘Mal-acostumados,
queremos bater o
recorde de vendas’’
‘‘Estão tentando
decupar tudo
na vida atual’’
Por que o Barão Vermelho ficou tanto tempo sem gravar músicas inéditas e como foi o processo de composição deste novo disco?
Guto Goffi - Mais de 80% das músicas foram compostas muito perto da gravação do CD novo. Logo depois do ‘‘Carne Crua’’ (disco lançado em 94), Frejat teve um espaço grande de ‘‘abstinência’’ de composição e eu também. Voltamos a compor de uns dois anos para cá. Quando decidimos fazer o novo disco, tínhamos muito material. De 30 a 35 músicas, das quais selecionamos 11 para o ‘‘Puro Êxtase’’.
Então sobrou muita coisa, dava para fazer um outro disco...
Goffi - A pior coisa é ter um prazo pequeno para compor. É ter a obrigação de fazer um disco por ano. Só isso já inibe o compositor. Como a gente teve um período mais longo, de quatro anos, foi até fácil compor. Quanto às músicas que escolhemos, queríamos um álbum com temática leve. Mantivemos isso. Escolhemos as letras mais para cima, com bom astral.
Por que?
Goffi - A música está servindo como válvula de escape para as pessoas. Elas querem é se divertir, passar bons momentos. Optamos por um disco positivo e por isso a seleção dessas faixas.
E como aconteceu a introdução da eletrônica no som do Barão?
Goffi - Reunimos boas faixas e optamos também por uma virada sonora. Queríamos dar uma modernizada legal no que vinha sendo conhecido como a sonoridade do Barão Vermelho. Então escolhemos o Marcelo Mansur, o Memê, para produzir o disco. Ele já havia trabalhado com o Lulu, Claudinho e Bochecha e Gabriel, o Pensador. É um cara que vem acertando muito. Nos expusemos ao desafio de alguém bem diferente.
Foi bom trabalhar com ele?
Goffi - Achei que o Memê correspondeu total. O disco saiu com um sotaque bem mais pop do que gente fazia. É um disco para tocar no rádio. Todas as faixas estão com formato radiofônico e foram feitas para isso. Memê é um cara inteligente. Não que ele tenha trazido todos os ingredientes de modernidade, porque o Barão também estava presente na produção. Maurício Barros, que já havia tocado com o Barão e participa também do disco, foi a primeira pessoa que cobrou da banda uma mudança, mais modernidade. Ele cobrou desde o ‘‘‘Álbum’’. Primeiro dói, mas depois de alguma reflexão aceitamos.
Mas o Barão sempre foi bom vendedor de disco, mostrando boa aceitação do público, mesmo com a sonoridade mais tradicional, não é?
Goffi - Depois de ‘‘Carne Crua’’, um disco que a gente gosta muito, a mídia já estava voltada para outra coisa. Era um disco de rock tradicional, cheio de guitarras. Mas não rendeu o que esperávamos e veio a pergunta: ‘‘será que estamos nos esforçando à toa?’’. ‘‘Carne Crua’’ vendeu 70 ou 80 mil cópias. O mercado cresceu. Hoje em dia 100 mil cópias não é nada. Se uma gravadora quiser, ela coloca 100 mil cópias nas lojas tranquilamente. O mercado deu uma crescida. Já o ‘‘‘‘Álbum’’ vendeu 330 mil cópias, é o nosso recorde. Agora ficamos mal-acostumados e queremos repetir ou bater o recorde.
Nesta ‘‘modernização’’ da procura pelo som eletrônico, os bateristas sempre são os primeiros a serem dispensados. Pensando nisto, como foi a sua relação e a do Peninha com o trabalho do Memê?
Goffi - As pessoas estão tentando decupar tudo na vida atual e acabam dispensando o fator humano. Não querem pagar cachê, alimentação, passagem para um baterista se podem fazer com a eletrônica. Para mim, a verdade está no meio. No Barão, fui tentado a não tocar bateria, porque a eletrônica já estava legal, mas foi um desafio, um ponto de honra. A graça é procurar a fusão. O Memê até reclamou de uma outra entrevista em que eu falei que ele queria me convencer a não tocar bateria em algumas músicas, mas é verdade. E eu encarei a coisa como um desafio. O Brasil tem uma grande riqueza sonora, principalmente de bateria e percussão. O Peninha teve um pouco mais de atrito com Memê que também queria tirá-lo de algumas músicas.
Por que vocês optaram por regravar ‘‘Cena de Cinema’’ (Lobão e Marina Lima)?
Goffi -‘‘Cena de Cinema’’ foi idéia do Memê. Ele sugeriu regravar uma ou duas músicas. Decidimos aceitar uma. Porque ele tem projeto de lançar um disco solo dele como produtor e tinha pensado em Frejat cantando ‘‘Cena de Cinema’’, então já ficaria pronta. Foi um prazer tocar. É a música mais antiga do disco e, ao mesmo tempo, a que teve tratamento mais modernoso.
Como vocês vão fazer para colocar toda a parte eletrônica nos shows?
Goffi - Tínhamos duas opções. Ou viajar com ‘‘sequência’’, como é o caso do U2 que leva um verdadeiro estúdio para o palco. Ou, como é o caso no nosso mercado tupiniquim, viajar com a DAT - um gravador oito canais - usando as programações do disco. Tocamos em cima desses ‘‘loopings’’ - que é o nome técnico - para não ficar distante da sonoridade do disco e ao mesmo tempo prender um pouco a banda na coisa já programada. Ainda estamos um pouco apreensivos para o show de Curitiba. Estamos ensaiando para que nada saia errado. Mas tocaremos 21 músicas e apenas seis ou sete terão esta programação. Não é todo o show. Com desenrolar da turnê creio que ficaremos mais soltos.
Puro Êxtase - Início da turnê nacional do novo disco do Barão Vermelho. Sexta e sábado, na Forum, em Curitiba (Rua João Palomeque, 80). Ingressos antecipados a R$ 15,00 com preço ainda indefinido para quem comprar na hora do show.

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