O Valentino, reduto da boêmia londrinense, vai ''fechar'' em dezembro. A data parece distante, mas alguns de seus frequentadores já estão se sentindo quase ''órfãos'' do bar. O imóvel cujo terreno abrange mais cinco casas em volta, teria sido adquirido pelo empresário Eraldo Desiré, que não confirmou a compra ao ser procurado pela reportagem.
O bar fecharia as portas já no mês passado. Mas os atuais locatários conseguiram assinar um contrato de permanência por mais 1 ano. Valdomiro Chammé, um dos sócios da casa, explica que existe a possibilidade futura de tocar o bar por mais seis meses. ''É que o contrato poderá ser renovado'' informa.
Com fama de ser o ponto de encontro de fim de noite, o Valentino tornou-se o local para onde todos se dirigem depois que os demais bares já colocaram as cadeiras sobre as mesas. ''Nenhum outro bar junta tanta gente diferente convivendo sem conflitos'' salienta o jornalista e roteirista de quadrinhos Claudio Yuge, outro habitué da casa.
Essa característica foi transportada para as páginas da revista em quadrinhos ''Apenas Outra História Rock'n'roll'', que ele lançou recentemente em parceria com o desenhista Papito. A trama é ambientada inteiramente no Valentino durante um show fictício da banda local The Cherry Bomb. ''A revista fala sobre diferenças'' explica Yuge. ''E no bar, você vê um gótico ao lado de um playboy, um punk ao lado de um cara machão de camiseta regata e ninguém sai brigando. Não existe formalidade no jeito de vestir dos frequentadores. Todo mundo vai à vontade, ninguém fica preocupado com o que o outro vai pensar''.
O bar oferece uma programação cultural regular com três eventos semanais incluindo peças de teatro, performances e shows musicais. Numa das paredes, uma vitrine abre espaço para artistas visuais iniciantes mostrarem seus trabalhos. A cantora Gisele Almeida lembra que o Valentino foi o palco de seu primeiro show na cidade.
''Cheguei aqui em 1997 e ano seguinte cantei ali acompanhada pelo músico Artur Gonzaga, depois de nos conhecermos no balcão'' diz. Para ela, as apresentações no Valentino costumam ser mais valorizadas pelo público do que em outros lugares. ''Todo show ali é especial'' proclama, anunciando que volta ao mesmo palco no próximo domingo para fazer um tributo a Elis Regina
Inaugurado em 1979 pelo então diretor de teatro, José Antonio Theodoro, o bar passou por outras mãos até ser comandado pelo casal Valdomiro e Rosângela Chammé. Hoje, eles são sócios de dois ex-garçons, que são os que ficam atrás do balcão em contato com a clientela. Nos últimos dias, a informação de que o imóvel do bar estava vendido, deixou muitos frequentadores preocupados.
''Quando me contaram, pensei: o que será de mim, agora?'' lembra o ator e diretor de teatro João Henrique Bernardi, 33 anos, que bate cartão no local há mais de 15 anos. ''O Valentino faz parte da minha história. Ali, conheci pessoas legais, tive conversas legais e assisti a muitas peças legais. Lembro que no começo dos anos 80, havia uma certa rivalidade entre os grupos de teatro Proteu e Delta, que eram os maiores da cidade. Quando um ou outro estreava um espetáculo, todos os atores iam para o bar e ficavam lá cara a cara. Aquilo excitava todo mundo que acompanhava o movimento teatral da cidade''.
Bernadi lembra que o estigma de ''bar gay'', atribuído ao Valentino, marcou bastante sua adolescência: ''Havia um desejo de ir e ao mesmo tempo o medo. Hoje em dia, isso não existe mais. Mas, na época, o Valentino era o bar do pecado''. Para consolar a clientela, Rosângela Chammé adianta que o Valentino não fechará as portas em dezembro de 2003. ''Se for para mudar de ponto, mudaremos, mas o bar continuará funcionando'' diz.
A sócia da casa acrescenta que um grupo de estudantes de arquitetura chegou a sugerir a remarcação das madeiras do prédio para refazer seu modelo arquitetônico no futuro endereço.

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