Banquete poético
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de novembro de 1997
Nelson Sato 
Londrina
Milton DóriaMaurício Arruda Mendonça: um dos talentos emergentes da poesia brasileira contemporâneaHoje é dia de se fartar de poesia. O banquete será servido pelo poeta londrinense Maurício Arruda Mendonça, que faz o lançamento de seu primeiro livro de poemas Eu Caminhava Assim Tão Distraído no Centro Cultural do Lago Igapó I a partir de 20 horas.
Apesar da estréia, o anfitrião já foi saudado por críticos paulistanos como um dos talentos emergentes da jovem poesia contemporânea brasileira. Seria o caso típico do autor inédito caindo de maduro. O lançamento inclui exposição de fotos de Rogério Ivano e leitura de poemas com participação de artistas e músicos locais como o diretor Paulo de Moraes, a atriz Patricia Selonk, o compositor Bernardo Pellegrini, a cantora Simone Mazzer, o ator João Marcelino e a banda de rock Bufalos DÁgua. De Curitiba, vem o pianista Marcelo Torrone para badalar a festa.
No livro, Mendonça reúne versos das mais variadas matrizes poéticas. Você vai encontrar hai-kais, dicção coloquial, elementos mais ligados à poesia chinesa e até soneto. Mas, na verdade, não tenho preocupação com essa coisa de referências literárias. Por mais que eu tenha adquirido a técnica, o ato de escrever é sempre um gesto íntimo, impulsivo e começa sempre do zero a zero - explica ele.
Teatro Mendonça considera seu livro um depuramento de 15 anos de aprendizado poético. Há um forte componente lírico em minha produção. Lirismo aqui no sentido de dar expressão às experiências vividas, e não o lirismo desbragado - salienta. Londrinense da gema, o autor cita a cidade em alusões sutis e em títulos de poemas.
Mas essas referências não são explícitas - avisa. Londrina me inspira muito durante o inverno. Nessa estação fico mais ligado, mais climático. Os textos traduzem isso, revelam um jeito de perceber os movimentos da natureza, que talvez venha do hai-kai. Contrário à corrente formalista, que alcançou uma exposição estridente na mídia nos últimos anos, Mendonça surge como um dos exemplos notáveis de insubmissão poética ao apontar outras vertentes criativas para o gênero.
Poesia sem conteúdo, não fica - diz ele. O leitor não perde mais tempo com poesia auto-reflexiva. Ela tem que traduzir experiências de vida - proclama, endereçando a crítica à tradiçao concretista. Aos 33 anos, Mendonça traz no currículo as traduções de Poemas de Sylvia Plath e Iluminuras (Gravuras Coloridas) de Arthur Rimbaud - ambos em parceria com Rodrigo Garcia Lopes.
Música Este último trabalho ganhou adaptação teatral apresentada pelo ator Adriano Garib. Atualmente cursa pós-graduação em Literatura Brasileira na USP, onde estuda o romance Catatau, do curitibano Paulo Leminski. Diversificando suas atividades, dá aulas de História do Teatro na Escola Municipal de Teatro.
Na mesma área, colabora com o Armazém Cia. de Teatro para o qual já traduziu a peça Out Cry, de Tennessee Willians, e escreveu Sob o Sol em Meu Leito Após a Água em parceria com o diretor Paulo de Moraes. Na música, assinou letras para os compositores Bernardo Pellegrini, Sidney Giovenazzi e Marco Antônio Scolari.
Para o lançamento de seu livro hoje à noite, o poeta contou com o apoio da Cantina da Mamma e da Viação Garcia.
Lançamento do livro Eu Caminhava Assim Tão Distraído, de Maurício Arruda Mendonça, no Espaço Cultural Igapó I (onde funciona o Foto Clube e a Escola de Dança), a partir das 20 horas.Há coisas que não se sabe
aos vinte
e não faz falta
há coisas que se sabe
aos trinta
e ainda falta
há coisas que jamais se saberão
nem aos vinte
nem aos trinta
só essa falta
Poema de Maurício Arruda Mendonça no livro Eu Caminhava Assim Tão Distraído


