Ao completar 70 anos, o conceito lançado por Oswald de Andrade
volta ao centro dos debates culturais como tema de eventos
acadêmicos, livros e da próxima Bienal Internacional de Arte
ReproduçãoOswald de Andrade
Nelson Sato

A antropofagia, quem diria, virou palavra ‘‘da hora’’. Se você ainda não ouviu falar, trate de se informar, pois o conceito lançado pelo escritor Oswald de Andrade voltou a alimentar polêmicas prometendo levantar mais poeira a partir do mês que vem com o lançamento de livros e a realização da 24ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo.
Reprodução‘‘Abaporu’’, quadro que Tarsila do Amaral pintou em 1928‘‘Só a Antropofagia nos une’’, disparava a primeira frase do manifesto redigido por Oswald e publicado em maio de 1928. O panfleto esboçava um projeto utópico de renovação cultural para o País anunciando uma fórmula híbrida que combinava a originalidade nativa e a devoração da cultura estrangeira.
A idéia prosperou, atravessou décadas e influenciou fenômenos artísticos marcantes como a poesia concreta, o teatro Oficina e o tropicalismo. Nos anos 90, o tema veio à tona catalisando reinterpretações acadêmicas - especialmente na área de Antropologia - e atitudes no universo pop - com destaque para o movimento musical ‘‘mangue beat’’, que propôs um plugue na tradição e outro na parabólica.
ReproduçãoA turma tropicalista influenciada pelas idéias de Oswald de AndradeCom alguma estridência, o conceito foi retomado no final do ano passado com a publicação do livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso. Nele, o compositor polemizava com o psicanalista Contardo Calligaris a respeito dos efeitos provocados pelo enraizamento da visão oswaldiana na cultura brasileira.
Caetano recusava a noção de seu contendor de que ela seria um ‘‘mito nocivo’’. ‘‘A idéia do canibalismo cultural’’ - escreveu ele - ‘‘servia-nos, aos tropicalistas, como uma luva. Estávamos ‘comendo’ os Beatles e Jimi Hendrix. Nossas argumentações contra a atitude defensiva dos nacionalistas encontravam aqui uma formulação sucinta e exaustiva.’’
E prosseguia: ‘‘São poucos os momentos de nossa história cultural que estão à altura da visão oswaldiana. Tal como eu a vejo, ela é antes uma decisão de rigor do que uma panacéia para resolver os problemas de identidade do Brasil.’’ A polêmica continuou pelas páginas dos jornais. Mais recentemente, no mês de maio, a revista Bravo! dedicou uma edição à comemoração dos setenta anos do Manifesto Antropófago.
ReproduçãoOs poetas concretos Décio Pignatari,
Haroldo e Augusto de CamposJá na capa, uma foto de Oswald de Andrade aparecia manchada por um tomate espatifado. Dentro da revista, seis estudiosos tratavam de destrinchar o legado do escritor. ‘‘A antropofagia gerou de acólitos o que não pôde produzir em obras’’ - postulava com sarcasmo o texto de apresentação dos artigos, alguns assinados por gente de peso como o historiador Nicolau Sevcenko, o poeta Ferreira Gullar e o filósofo Benedito Nunes.
No mês passado, foi a vez da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e do Museu da República (também do Rio) acolherem exposições e seminários no evento Antropofagia - Releituras. A exposição ficou em cartaz até o último domingo, sob a curadoria da arquiteta Gisela Magalhães. ‘‘Oswald teve uma intuição notável, e que hoje em dia está mais atual do que nunca diante de um mundo globalizado. A tirania da informação exige a prática constante da devoração’’ - argumenta o professor João Cesar de Castro Rocha, integrante da Comissão UERJ/500 anos, que organizou a programação.
ReproduçãoSuely Rolnik: dois livros inspirados na antropofagiaA idéia da ‘‘devoração’’, continua ele, foi inspirada no ritual de deglutição dos índios caetés. ‘‘Eles comiam seus inimigos não por fome, mas com um sentido que visava assimilar do outro aquilo que ele tinha de melhor seja a destreza, a bravura ou as virtudes morais.’’ Castro adianta que uma revista e um livro serão publicados ainda este ano reunindo as conferências cariocas.
Mas outros títulos sobre o assunto começam a agitar o mercado editorial. Acaba de sair o livro Portinari Devora Hans Staden, que traz desenhos inéditos feitos pelo pintor Cândido Portinari em 1941, além de um volume embutido (História Verídica) relatando as aventuras brasileiras do alemão Hans Staden entre 1547 e 1549.
DivulgaçãoTunga: herdeiro da
estética antropofágicaO livro incluso, que descreve seus contatos com os indígenas locais, fez a cabeça de Oswald quando de sua primeira publicação no começo do século. Também em torno do conceito de antropofagia, dois volumes da psicanalista e escritora Suely Rolnik chegam simultaneamente às livrarias mês que vem: Inconsciente Antropofágico - Ensaios sobre a Subjetividade Contemporânea e Corpo Vibrátil, ambos pela editora Estação Liberdade.
O lançamento ocorrerá durante a Bienal de Arte, cujo catálogo aliás incluirá três textos de sua autoria. Rolnik retoma o panfleto modernista revalorizando-o como insuflador de potências criadoras no País. Em Corpo Vibrátil, analisa os ecos dessa herança estética na moda e nas artes plásticas, sublinhando, nessas últimas, obras de artistas como Lygia Clark e Tunga.
Convém lembrar que as artes plásticas exerceram papel-chave na constituição do canibalismo cultural proposto por Oswald de Andrade. O próprio Manifesto tem origem no impacto causado pelo quadro ‘‘Abaporu’’, da pintora Tarsila do Amaral, que o teria dado de presente de aniversário ao escritor. A tela mostra um homem de pernas enormes e cabeça pequena, sentado ao sol. Ao vê-lo pela primeira vez, Oswald teria exclamado: ‘‘Tupi or not tupi, that is the question.’’
É a obra de Tarsila, diga-se, que vai centralizar a mostra brasileira na 24ª Bienal de Arte. Afiem os dentes. O banquete começa dia 4 de outubro.

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