Primeiro filme dirigido por Antonio Banderas combina road movie de humor negro e drama racial
France PresseAntonio Banderas com Melanie Griffith: casal aproveita a boa fase em Veneza no lançamento do filme ‘‘Crazy in Alabama’’
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza para a Folha2
O francês ‘‘Le Vent de La Nuit’’ e o americano ‘‘Jesus’s Son’’ encerraram anteontem a seção competitiva da 56ª Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica. E não acrescentaram muito mais para facilitar a vida do júri presidido pelo bósnio Emir Kusturica. A propósito, a matéria de que é constituído o júri fornece algumas pistas para a cova dos Leões.
Avaliando esta composição, admitindo variações humorais diversas e consequentemente não descartando o fator surpresa, até o filme de estréia de Antonio Banderas, ‘‘Crazy in Alabama’’, aparece com relativas chances, ao lado de Kiarostami, Jane Campion, do belga Frederic Fontayne e dos dois Zhang, Yimou e Yuan.
Em lua-de-mel com o primeiro filme que dirigiu e que agora entra em circuito mundial depois de exposto na nobre vitrine veneziana, Antonio Banderas, felizmente, não é apenas o novo latin lover que a indústria americana de folguedos sexuais está vendendo mundo afora. Tem cérebro, é inteligente, articulado. Por trás da câmera e ao vivo, durante a superlotada e confusa coletiva de anteontem no Casinó, Banderas tem coisas interessantes para contar. E, é inegável, as conta com charme, paciência (algumas coleguinhas italianas renderam-se ao frisson do momento e partiram para a tietagem explícita) e muito bom humor, sempre diante dos belos, atentíssimos, vigilantes e embevecidos olhos de Melanie Griffith, aqui em Veneza dublê de atriz e esposa. É um belo casal e, o que é fascinante de fato, com massa cinzenta que arquiva os estereótipos do macho man sedutor e da loura burra curvilínea.
‘‘Crazy in Alabama’’ é um road movie simultaneamente divertido e grave sobre duas formas de opressão e violência: contra a mulher e a minoria negra no Sul dos Estados Unidos. Comédia dramática de humor negro baseada em novela de Mark Childress, o filme situa a ação no verão de 1965 no ‘‘deep South’’, quando o conflito racial e a luta pelos direitos civis atingia a temperatura mais elevada. Peejoe, um adolescente de 13 anos, inicia seu aprendizado de vida em busca do significado de liberdade. É sua a narrativa, a partir da cena que abre o filme. Ele fala de sua tia, a excêntrica Lucille (Melanie Griffith), que acaba de matar o marido e cortar sua cabeça, iniciando a fuga a partir do Alabama rumo ao glamour de uma carreira em Hollywood. Para trás ela deixa sete filhos, treze anos de desprezo, humilhação e violência proporcionados pelo falecido. E uma pequena cidade que vai se transformando num barril de pólvora pronto para explodir com a tensão racial. Enquanto Lucille coleciona aventuras durante a louca escapada - sua personagem tem diversas semelhanças com a maluquete de ‘‘Totalmente Selvagem’’, de Jonathan Demme -, o mundo conflituoso de brancos e negros está prestes a explodir.
Louve-se, entre outras virtudes encontradas no filme, a capacidade que tem Banderas de conciliar humor e drama, traduzindo em imagens esta dualidade do roteiro sem que nenhum dos dois aspectos saia prejudicado. Na verdade, ‘‘Crazy in Alabama’’ começa como ‘‘black comedy’’, evolui para a comédia pura, invade os domínios da tragédia, cria momentos de emoção. De maneira estranha e coerente, os elementos aparentemente antagônicos e anárquicos nesta história específica acabam se interagindo numa espécie de colagem eclética.
Banderas, que nasceu em Málaga e cresceu numa Espanha sob as botas de Franco, diz que sua experiência quando mais jovem influenciou na escolha do argumento. Parece sincero e nada demagógico quando diz que o filme ‘‘é sobre liberdade e todos os aspectos da liberdade; ele me deu a oportunidade de abordar todos esses aspectos. E não importa onde a história se passa, se no Sul dos Estados Unidos, na Rússia, na Espanha ou na África do Sul - liberdade significa a mesma coisa em qualquer lugar sobre a terra.’’
Um pouco eclipsado pela efervescência provocada por Banderas & Melanie & ‘‘Crazy in Alabama’’, o segundo filme chinês da competição se coloca entre aqueles do pelotão intermediário. ‘‘Guo Nian Hui Jia’’(Dezessete Anos), de Zhang Yuan, é um drama urbano ambientado na China contemporânea. De fato, é uma tragédia profundamente humana sobre uma família que desmorona. Duas meio-irmãs, adolescentes típicas, se desentendem por causa de uma pequena quantia de dinheiro que uma delas furta do pai. A autora acusa a outra, que não consegue provar a inocência. Em meio a um discussão entre ambas, a irmã inocente atinge a infratora com uma pesada barra de bambu. A garota morre. A autora do crime é presa, condenada e sentenciada. Dezessete anos depois, a prisioneira recebe um indulto por bom comportamento e a autorização para passar o ano-novo com a família. Este reencontro familiar é que interessa mais ao diretor e roteirista Zhang Yuan.
Em hora e meia o filme - primeiro esforço cinematográfico conjunto entre China e Itália (com a produtora Fabrica, bancada pela Beneton) - consegue uma sensível radiografia deste universo de dores e penas. E lança um olhar pouco otimista em direção à família enquanto instituição capaz de suportar traumas internos e recuperar e administrar o afeto remanescente sem sofrimento ou danos consideráveis.

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