Banderas é o 13º guerreiro
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
Muitos são os fatos e lendas hollywoodianos sobre desavenças fatais - para os filmes, diga-se - entre diretores e produtores, diretores e atores, roteiristas e diretores. Uma meia dúzia de casos, mais ou menos condimentados, são flagrados a cada nova temporada pela vigilância cerrada da mídia. Sim, porque acima de nomes a zelar, de prestígio, reputação e honra a preservar estão os orçamentos fabulosos, alvo primordial dos cronistas coletores de gossips, matéria-prima da frivolidade da indústria cinematográfica americana. E os descaminhos que cercaram a produção de O 13º Guerreiro - que estréia hoje em circuito nacional - acabaram de domínio público exatamente porque os primeiros 100 milhões de dólares viraram fumaça, no já famoso e famigerado over budget. Sem contar os prazos, igualmente detonados - a produção se arrastou por dois longos anos. A partir do estouro da conta e do cronograma, foi fácil rastrear o imbróglio que acabou levando o filme à vala comum dos deserdados da sorte e da fortuna. Trocando em miúdos: o tempo fechou entre a principal vedete do show, o escritor Michael Crichton, e o diretor John McTiernan, que durante a briga encontrou tempo mais que suficiente para realizar e lançar a refilmagem de Crown, o Magnífico, rebatizado como A Arte do Crime.
Autor do livro-argumento original (Eaters of the Dead), Crichton também supervisionou o roteiro e co-produziu o filme, e da mesma forma como ocorreu em Sol Nascente, Congo e Esfera, quando o ego desmesurado e uma parcela ditatorial de poder anularam as boas intenções de, respectivamente, Philip Kaufman, Frank Marshall e Barry Levinson, aqui também a corda rompeu na mão de McTiernan, diretor de comprovada eficiência no território sempre congestionado do thriller de ação - são dele o primeiro e melhor Duro de Matar e o hoje clássico da SF O Predador.
Pálida variação de Os Sete Samurais, uma das obras-primas de Kurosawa, O 13º Guerreiro é uma saga com pretensões épicas localizada no ano 922 d.C., tendo como figura central um árabe aristocrata e refinado, Ahmed Ibn Fahdlan (Antonio Banderas). Exilado no norte da Europa (na verdade locações canadenses) depois de seduzir a mulher de um embaixador de Bagdad, Ahmed encontra um grupo de vikings comandados por Buliwyf (Vladimir Kulich), uma espécie de macho clan, e com eles parte em expedição para lutar contra criaturas demoníacas, um povo antropófago que habita uma região de cavernas nas montanhas da Noruega. História apetitosa, confecção pífia.
A estrutura da narrativa é velha conhecida, a mesma de Jurassic Park. Ou de Congo. Homens confinados num espaço limitado, ameaçados por seres monstruosos. Puro Crichton. Mas a rigor não existe uma trama em desenvolvimento, consistindo em pouca coisa além de ação - nem sempre de boa qualidade, o que supreende - com velheidades de estilo, como câmera na mão e câmera lenta no duelo final. E sob chuva....
Motivação, pathos e caracterização não fazem parte do manual. Os canibais inimigos são mostrados apenas de longe, e se o espectador intuir um potencial etno-horrorífico, esqueça: não se sabe jamais quem são, o que fazem, como vivem. E no império da testosterona, as mulheres são meramente decorativas, o que é no mínimo afrontoso para a veterana Anne Bancroft, quase despercebida. Banderas é o anti-Schwarzenegger, a princípio cogitado para o papel. E tendo oportunidade, ainda hoje McTiernan jura que o corte final na moviola não foi dele mas de Crichton. O escritor teria não apenas editado à revelia mas também surrupiado os 45 minutos que, segundo o diretor, seriam suficientes para acomodar a dimensão épica por ele pretendida.





