Banda gaúcha enterra fase vira-lata
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segunda-feira, 29 de junho de 2009
Marco Bezzi<br> Agência Estado 
Música digital, iPod, Bluetooth, Sandy sem Junior. Não é à toa que pensadores e filósofos de botequins tratam os tempos modernos como o período do fim dos sonhos e das utopias. Mas há aqueles atrelados às décadas de 60 e 70 que conseguem dialogar com a nova geração. Ao lançar o quinto disco de carreira, os gaúchos da Cachorro Grande dão mais um passo em direção àquilo que chamam de ''crescer devagar e sempre''. Para o grupo, vinil e música digital têm que andar juntos.
''Vou começar até a twittar'', brinca o guitarrista Marcelo Gross. ''Minha filha baixou todos os discos do The Who em poucas horas. Eu demorei anos pra completar a minha coleção, mas vou falar o quê?'', conta o vocalista Beto Bruno, 36 anos, pai de uma garota de 18.
Já Gross diz que vai pular do Atari para o Playstation 3 só para aproveitar o ''Rock Band'' dos Beatles, que será lançado em setembro. ''Até chorei quando vi o teaser na internet. Vou também comprar um laptop pra levar para as viagens. Esse negócio de internet é muito louco'', aponta.
Falando do novo álbum, ''Cinema'', estética e sonoridade continuam a flertar com o passado, agora, sem tantas amarras que permitiam apenas as comparações com Beatles e The Who. ''Estamos numa fase space rock. Sempre ouvimos esse tipo de som, mas nunca nos permitimos colocar na nossa música'', fala Gross. ''Cinema'' traz um som inspirado nos anos 60 e 70 e admite Pink Floyd, Jethro Tull e Led Zeppelin.
''Escutamos muitas coisas como o ''More'' do Pink Floyd, o segundo e terceiro álbum do Animals. Aquele elo perdido entre o final do psicodelismo e o início do rock progressivo'', ressalta Bruno. A aproximação com uma sonoridade mais rebuscada já se tornou possível, pois a banda gravou todas as 12 faixas em fitas de rolo de 2 e meia polegadas.
A busca por um verniz ainda mais vintage traz a discussão sobre os detratores do grupo. ''Tem gente que ainda diz que nos vendemos, que não fazemos mais aquele rock visceral de antigamente. Pura bobagem. Beatles e The Who sempre gravaram nos melhores estúdios da Inglaterra'', rebate Gross. ''Os motivos são todos, menos musicais.'' O guitarrista ainda lembra de um episódio que aconteceu há pouco tempo. Um fã ''das antigas'' veio interpelá-lo, reclamando que o grupo não faz mais álbuns como ''As Próximas Horas Serão Muito Boas'', de 2004. ''Não conseguíamos lançar o disco e gravamos como deu. O cara veio falar que gostava daquela sonoridade tosca. Só foi feito assim porque não tínhamos condições de fazer melhor.''
O disco que chega agora no formato CD será lançado até o fim do ano em uma edição especial em vinil, uma das paixões - elementar - da dupla. ''Eu preciso ainda pegar o disco, guardar ele na prateleira'', assente Bruno. Sem ter um ''bum'' que os fizesse cair no gosto do povo, Gross sabe aonde pode chegar. ''Fazemos um rock inglês cantado em português em um País que ama samba e bossa nova. Acho que estamos nos saindo muito bem.''


