Bambu mistura harpa e harmônica
Álbum de estréia
da banda carioca
traz sonoridade
própria embasada
em música tradicional
ReproduçãoBambu: mesmo parecendo estranho, agrada
Ranulfo Pedreiro
Marcus Vinícius de Andrade se surpreendeu ao ouvir a fita demo que uma ex-aluna lhe enviara. Além da voz límpida, havia uma reunião de instrumentos inédita na MPB. Os arranjos mesclavam harpa, harmônica, contrabaixo e percussão. O diretor-artístico do selo do Centro Popular de Cultura da União Metropolitana de Estudantes Secundaristas - o CPC-Umes - não hesitou, e convidou o grupo para gravar um CD horas após ouvir a fita.
Lançado no mês passado, o álbum Bambu marca a estréia da banda de mesmo nome, que já traz um amadurecimento sonoro incomum utilizando instrumentos aparentemente tão distantes quanto harpa, gaita e percussão. Se a formação causa estranhamento, o resultado agrada.
Na salada musical do Bambu entram ingredientes da música clássica - a maioria de seus integrantes passaram por ela - da música popular e do jazz. O repertório do disco traz músicas tradicionais como Cantiga e Gigante, de domínio público, e clássicos da MPB como Upa, Neguinho, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, e O Vento, de Dorival Caymmi - nesta versão, o assovio de Caymmi é substituído pela gaita de José Staneck, que dialoga com a voz de Barbara Lau. O CD traz ainda composições do contrabaixista Ricardo Medeiros - responsável pelos arranjos principais - e de todo o grupo.
O resultado estético não é comum, é bem diferenciado. O Bambu já tem uma característica sonora bem definida, é difícil criar uma sonoridade própria e acho que esse é o nosso maior trunfo, comenta José Staneck.
Essas características podem causar estranhamento em versões como Upa, Neguinho - marcada pela interpretação de Elis Regina - mas as comparações devem ser evitadas em função da sonoridade do grupo, sustentada nesta faixa pela percussão do norte-americano Russel May.
Não queremos ser melhores que ninguém, apenas temos um som diferente que deve ser ouvido com cuidado. Com músicas conhecidas a comparação é inevitável, mas procuramos dar-lhes uma cara nova, acrescenta Staneck. Já as composições do grupo, concebidas para a formação, têm outro resultado: Quando compomos, a música já sai do nosso jeito.
O disco Bambu já foi apresentado no Rio de Janeiro e em São Paulo, e tem arrancado elogios da crítica. O grupo se formou num momento em que tanto José Staneck quanto a harpista Cristina Braga passavam por transições musicais. Acostumado a um repertório mais popular, Staneck resolveu interpretar música clássica. Cristina, que tinha formação clássica, estava se aproximando da MPB. Nessa encruzilhada nos encontramos, ressalta Staneck.
À união entre harpa e gaita somou-se o contrabaixo. O Bambu atuou como trio por algum tempo, até que seus componentes resolveram acrescentar a voz de Barbara Lau. A cantora havia feito um curso com Marcus Vinícius de Andrade, e resolveu enviar a fita-demo para o produtor.
Nós tocávamos juntos há uns quatro anos quando começamos a procurar algumas tradições da música popular e resolvemos acrescentar voz para dar uma estética diferente, e o som deu certo, recorda-se Staneck. A diferença no som do Bambu está principalmente nos recursos da harpa e da gaita, dois instrumentos pouco conhecidos na música popular.
A gaita no Brasil é mais conhecida no blues. A harpa, então, nem se fala, fica todo mundo embevecido quando ouve. São instrumentos que as pessoas desconhecem, têm pouco referencial, mas o preconceito existe apenas antes de ouvir. Depois todos gostam, assegura.
O Bambu já está com shows programados no Rio de Janeiro, Niterói e Curitiba, onde se apresenta nos dias 28 e 29 de agosto no Teatro Paiol - há a possibilidade do show passar também por Londrina. O primeiro álbum do grupo já está nas lojas, com distribuição da Eldorado Fonográfica.





