BAMBA DÁ AULA DE SAMBA
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Quatro horas da tarde de segunda-feira. Numa das salas do Colégio Estadual do Paraná rola uma roda de samba, com cerca de 15 alunos da 8ª Oficina de MPB. Tem piano, violão, cavaquinho, percussão, sax e a afinação muito bem casada com o sabor do ritmo mais genuíno. Samba tocado e cantado como faz a velha- guarda, apesar dos estudantes estarem na faixa dos 20. Apreciando a performance, o professor pergunta: Ensinar o quê para eles?
Muita coisa. Afinal, quem está ali dando o curso de Composição do Samba é ninguém menos que Nelson Sargento, 76 anos, autor de mais de 400 composições, e há mais de meio século ligado à Mangueira. Poeta de letras sensíveis, que se encaixam em suas músicas, ele não se coloca nesse figurino.
Compositor de samba não é poeta. Pelo menos não é considerado assim, explica aos jovens. Em compensação o letrista tem o poder da síntese, que é uma qualidade essencial: em meia dúzia de versos conta-se uma história. Aliás, a maior parte das narrativas de amor, baseia-se em casos da vida real, afirma.
Um rapaz escreve uns versos e cantarola para Sargento: Nega, assim não dá/ nem sozinho/ posso trabalhar. Toda a classe envolve-se na letra, mas alguma coisa está faltando. Depois de alguns erros de interpretação o autor pensa uma coisa, alguns colegas entendem outra o veterano compositor clareia o raciocínio: Nega, assim não dá/ me deixe sozinho/ que eu preciso trabalhar.
Aí vem toda uma explicação sobre alguns truques musicais, como a ênfase em nega e um breve intervalo para continuar assim não dá. Além de acentuar o ritmo, torna a imagem mais nítida, sem atropelar a frase.
Na sequência da conversa que é a essência de suas aulas, pois Nelson Sargento tem muito a dizer e a mostrar para seus alunos , entra em questão o que é mais importante: a letra ou a música? O ideal é que ambas tenham a mesma qualidade, mas uma boa melodia tem muito mais chance de cair no gosto do público, mesmo acompanhada de letra ruim.
Se ocorrer o inverso, ou seja, uma obra-prima de texto e uma música ruim, aí não tem jeito. Está fadado ao fracasso. Samba é música, afirma. Porém, o gosto musical varia conforme o tempo. Uma composição feita hoje pode ser considerada ruim, mas ser apontada como genial daqui a dez anos. Música é como bilhete de loteria. Tá branco hoje, e é premiado no futuro, ensina.
Sargento, ao longo destes 76 anos de vida, conheceu os grandes mestres do samba, dos quais é um dos últimos remanescentes. Seu contato com os alunos passa naturalmente desses comentários sobre sucesso e fracasso, para questões como da venda de músicas, muito comum a partir dos anos 20.
Francisco Alves, a maior estrela do rádio brasileiro e com um talento raro na escolha do repertório, ia direto nas fontes. De Cartola comprou direitos autorais, jamais a autoria em si, enfatiza Nelson Sargento. O sucesso da música podia render fortunas ao intérprete, devido ao acordo já firmado, mas o compositor continuava sendo Cartola. Divina Dama é um desses exemplos.
Para a garotada, o dever de casa é trazer uma composição meia-dúzia já apresentou e fazer a segunda parte de um samba inacabado: Vou deixar o meu lar/ com muita razão/ pois você/ machucou o meu coração. A proposta dessa parceria foi feita na segunda-feira. O prazo vai até quinta-feira.
Entre seus alunos está o saxofonista Gabriel Schwartz (que Sargento viria a elogiar mais tarde para outras pessoas). Para o instrumentista, este contato com o autor de Samba agoniza mas não morre é uma oportunidade rara. Tem muito conhecimento da história do samba, que ele próprio vivenciou, comenta.
Nelson é a alma do samba. O samba o persegue e nós vamos atrás dele. É uma forma de perseguirmos o samba, diz Marcio Pizzi, que veio do Rio de Janeiro especialmente para o festival em Curitiba. Ele não tem obstáculo para compor.
Isso é o que os rapazes acham do professor. Sargento, por sua vez, também comenta sobre os alunos:
Com essa alegria toda, esse interesse todo, posso dizer que a música brasileira jamais morrerá. Oficinas como esta deveriam acontecer no Brasil inteiro, mas infelizmente não acontecem. A juventude não tem a oportunidade de viver esta experiência.
Já passou do horário de encerramento da aula, mas a turma continua na sala. Entre eles está Angelo Neto, que toca alguma coisa no piano, enquanto alguns colegas formam uma pequena roda junto ao professor.
Neto formou-se em piano clássico, mas há cinco anos conheceu o blues e foi de corpo e alma para a guitarra. Hoje é o guitarrista da banda Sexofone, que trabalha com o rock dos anos 60/70. Seguindo o exemplo do pai que é multiinstrumentista, no momento estuda viola caipira com Rogério Gullin.
Outro roqueiro da Sexofone, o baterista e vocalista Claudinho Brasil, acompanha as cantorias de Nelson Sargento tocando cavaquinho. Ele é maravilhoso é a simplicidade, a alegria, a humildade do brasileiro. Nelson sintetiza o brasileiro.
Para Claudinho, artisticamente é importante esse aprendizado do swing brasileiro. Na globalização dos dias de hoje, nada melhor do que o ritmo brasileiro, para colocarmos nas nossas influências do rock e do blues. É o que deverá ser feito numa das faixas do disco da banda em fase de produção.
À parte dessas conversas, Nelson Sargento anima o grupo puxando sambas que todos cantam. A essas altura alguns foram para outras aulas, a turma ficou menor, nem por isso menos entusiasmada. O professor conta que está com uma porção de sambas incompletos, por preguiça. Começa um e parte para outro. Ao deixar a sala, mais de meia-hora depois do previsto, comenta que costuma dar palestras sobre músicas, mas a experiência como esta é única. Quando faço palestra, tenho um assunto definido. Aqui é mais explícito, vai além do trivial.
Leia mais sobre a Oficina de MPB na página 3.Aos 76 anos e mais de 400 canções, Nelson Sargento empolga os alunos da Oficina de MPB ensinando a arte de compor
José SuassunaNelson Sargento: Música é que nem bilhete de loteria. Tá branco hoje, e é premiado no futuroJosé SuassunaMestre Sargento ensina: Não adianta a letra ser uma obra-prima se a música for ruim





