O corpo de balé do Teatro Guaíra, sem diretoria artística desde outubro, continua aguardando por uma definição da situação. Os bailarinos estão insatisfeitos com salários e condições de trabalho e pedem uma maior valorização da companhia, que completa 30 anos este mês.
A primeira bailarina do teatro, Eleonora Greca, há 23 anos no Ballet Guaíra, explica que há muita expectativa na nova diretoria artística, ainda sem nomes definidos e nem data certa para a posse. ‘‘Queremos voltar a ser uma companhia com força e projeção nacional’’, diz ela.
O nome mais provável para assumir o comando do grupo é o da bailarina Ivanise Satié, do Teatro Municipal de São Paulo. ‘‘Existe uma dificuldade na adequação de um bailarino a esta função, já que o Guaíra é uma companhia estatal e há uma cobrança maior do público e do governo’’, afirma Eleonora.
Isso justificaria as dificuldades recentes, como a passagem de apenas nove meses da bailarina do Grupo Corpo (MG), Cristina Purri, pela diretoria do Balé Guaíra. Antes dela, a bailarina Marta Nejm, que atualmente dança na Alemanha, dirigiu a companhia paranaense por um ano.
A falta de uma diretoria artística estável, entretanto, não é a única preocupação dos bailarinos. Eles reclamam da perda de autonomia e do ‘‘sucateamento’’ do teatro. ‘‘Desde que deixamos de ser uma fundação e nos tornamos uma autarquia, no governo Requião, perdemos muito’’, diz a bailarina.
Ela exemplifica dizendo que a companhia já chegou a contar com 50 bailarinos, época em que realizava uma média de 40 apresentações por ano. ‘‘Hoje somos 26 pessoas e a média de espetáculos caiu para os 20 anuais’’, conta.
Os bailarinos reivindicam uma política cultural que fomente novos espetáculos, que representariam o Paraná em todo o Brasil, justificando a ‘‘grandeza’’ e o ‘‘peso’’ do nome Teatro Guaíra.
Outra reclamação do grupo é sobre os salários, que não seriam dignos. A primeira bailarina, que entrou na companhia em 1976, diz receber R$ 800,00 mensais, por cerca de oito horas de trabalho diário. ‘‘Estamos há cinco anos sem receber aumento’’, denuncia.
Eleonora conta com orgulho que faz parte de uma companhia eclética, que possui um repertório invejável e que poderia representar o Paraná de forma exemplar, em todo o País.
Ela afirma que, entre os bailarinos, a indagação é frequente sobre qual a postura política do Estado, que não estaria incentivando o trabalho do grupo. ‘‘É preciso apenas ter vontade e não um rio de dinheiro’’, diz a primeira bailarina.
A secretária de Estado da Cultura, Lúcia Camargo, rebate dizendo que, atualmente, não existem mais companhias de dança com 50 bailarinos e que ninguém mais viaja tanto. Ela diz que, um bom exemplo é o Grupo Corpo, que é hoje a maior companhia do País e que se apresenta muito mais em Belo Horizonte do que em São Paulo e no Rio. ‘‘O mais importante não é dançar fora, mas em nossa própria cidade.’’
Ela afirma que o que falta ao balé do Teatro Guaíra é reconquistar a sua credibilidade junto ao público. Isso aconteceria através da adoção definitiva de um caráter contemporâneo do grupo. ‘‘Temos que nos adaptar aos tempos modernos’’, diz ela.
Quando o assunto é a questão salarial, a secretária diz que suas preocupações são maiores do que os casos específicos de cada componente. ‘‘Preciso pensar em abrir mercado e ampliar a indústria cultural’’, explica. ‘‘Eu poderia até mesmo contratar outros bailarinos, em caráter temporário, como já está acontecendo em várias companhias brasileiras’’, ameaça.
A secretária esclarece que a mesma política se aplicaria ao caso da Orquestra Sinfônica do Paraná, cujos músicos pleiteiam maiores salários. ‘‘O Paraná não tem indústria fonográfica, devemos pensar em ampliar o mercado’’, afirma. ‘‘Não posso trabalhar para músicos e bailarinos de uma única geração’’, diz a secretária.Arquivo FolhaBallet Guaíra em ‘‘Exultate Jubilate’’: bailarinos reclamam de falta de atenção e estão há cinco anos sem aumento salarialSimone Mattos

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