Balanço carioca
José Castello
Agência Estado
Eu tinha um encontro marcado comigo; mas, graças a Deus, nenhum dos dois compareceu, disse certa vez o escritor Fernando Sabino. Mesmo se tratando de uma confissão de caráter pessoal, Sabino pintou com essa declaração, com mais eficiência que a maior parte das definições oficiais, o perfil e a alma de Ipanema, bairro síntese do espírito carioca no século 20. Descompromisso, desprezo pelos rituais severos, a alegria acima da agonia sempre foram as marcas de Ipanema. Em que outro lugar um psicanalista de prestígio, no caso o polêmico Eduardo Mascarenhas, sairia do consultório para, vestido apenas com uma sunga sumária, jogar frescobol com uma atriz famosa que, minutos antes, estivera deitada em seu divã? Onde mais uma tanga de crochê vestida na praia por um ex-guerrilheiro, se tornaria o símbolo de uma abertura política?
Se eu soubesse o que estou fazendo, não faria, disse também o artista plástico Hélio Oiticica, outro filho da Ipanema clássica que, agora, nas mãos de Ruy Castro, se torna tema de Ela É Carioca Uma Enciclopédia de Ipanema (Companhia das Letras). E, de fato, na Ipanema dos anos dourados, fazer era mais importante que saber. O livro de Castro, porém, é composto de verbetes didáticos, exatamente como nas velhas Barsas que, nos anos 60, os estudantes de Ipanema consultavam para preparar os trabalhos do colégio. Só que, em vez de datas, genealogias e pedrigrees, eles estão cheios de histórias, histórias saborosas, dessas para ler na praia e passar adiante, como só Ruy Castro sabe contar.
Nessas histórias desfilam, como se estivessem passeando pelas dunas do píer ou escalando as pedras do Arpoador, desnudos e cheios de si, personagens célebres como Odete Lara, Vinícius de Morais, Gláuber Rocha, Leila Diniz, Paulo Mendes Campos, Paulo Francis, Jaguar, Regina Lecléry. Mas também nomes menos conhecidos como a jornalista, atriz e psiquiatra Germana de Lamare, o diplomata americano John Mowinckel (uma espécie de representante informal da CIA em Ipanema) e até mesmo o cachorro Barbado, que, nos anos 60, fazia ponto no bar Jangadeiro e tomava seu chope num prato.
Sempre interessado em atmosferas e cenários, Ruy Castro dedica verbetes também a bares, churrascarias, botecos, boates e sorveterias (como o Zeppelim e o Veloso, a Carreta, o Mau Cheiro, o Monsieur Pujol, o Number One e o Moraes), a butiques como a pioneira Mariazinha, a personagens de cartuns (como Tânia, a que vivia na fossa), a lutadores como Sinhozinho, revistas como a Senhor, e a territórios históricos como o Píer, o Sol e o Arpoador anterior aos surfistas.
Como ele mesmo avisa no mapa de Ipanema que abre sua enciclopédia, Ela É Carioca trata de uma certa Ipanema aquela que existiu entre os anos 20 e 70, ficando quase tudo o que ocorreu desde então de fora. Procedimento que, nas mãos hábeis de Ruy Castro, transforma o saudosismo numa espécie privilegiada de sonho. Antes de tornar-se Tônia Carrero, e mesmo antes de ser Mariinha Portocarrero, a atriz Tônia Carrero jogou vôlei, lutou jiu-jítsu, correu os 100 metros com barreiras e praticou ginástica rítmica. E mesmo quando se projetou no TBC não a levavam a sério: viam-na como uma atriz inferior a grandes divas como Cacilda, Cleyde Yáconis e Nathalia Timberg.
Sem abandonar o gosto pela precisão e pelo detalhe, o melhor do livro de Ruy, no entanto, está nas histórias. Casos, revelações, pequenas maldades que emprestam novos sabores a velhas lendas ou, ao contrário, ajudam a puxar de dentro delas esqueletos bastante incômodos. Mas em Ipanema, o livro de Ruy Castro nos faz ver, tudo é (ou pelo menos era) possível.
Vinícius de Morais, considerado sempre o homem típico de Ipanema, na verdade não chegou a morar no bairro, somadas todas as breves temporadas, nem cinco anos. Embora tenha composto sua célebre Garota de Ipanema, com Tom Jobim, nas mesas do bar Veloso (atual Garota de Ipanema, mas Castro prefere sempre os nomes antigos), Tom foi, tempos antes, proibido de tocar violão no bar, com a alegação de que, onde havia violão, havia também gente desclassificada.
Ele inclui em sua enciclopédia, por exemplo, o poeta Carlos Drummond de Andrade, só porque ele passou seus últimos 40 anos de vida na fronteira de Copacabana com o bairro e às vezes passeava de tênis pela Praça General Osório, ou ia ao Jangadeiros, lá pelas 7 de noite, tomar um chope. Mas não há paixão sem exageros e arroubos como esse só vêm emprestar mais charme ao livro de Ruy Castro.





