Baladonas recebem tratamento chique
Claro, os convidados são um chamariz fantástico. Mas mesmo sem a participação de medalhões, Celebração não seria menos interessante ou brilhante. É que onde Alcione enfia o vozeirão, cada vez mais com maneirismos jazzísticos, e é nisso que reside o charme, tudo fica muito estiloso. Até mesmo quando ela se auto-relê musicalmente, como é o caso de Celebração. O grande barato fica por conta da dignidade impressa às baladonas que, outrora, chegaram envoltas em arranjos de gosto duvidável. Estão, por assim dizer, mais chiques agora.
Um bom exemplo é Estranha Loucura, da sumida dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas. É um duelo de feras em que Alcione brinca com os graves e agudos com extrema habilidade enquanto o companheiro de microfone prefere apostar no jeito direto porém não menos emocionado de cantar. Por falar em baladas, Celebração é praticamente composto por músicas que falam do amor e desamor. Sambas, poucos.
Isso não chega a ser nenhuma novidade. Afinal, se no início Alcione veio ao mundo artístico com o rótulo de sambista, no decorrer dos tempos ela resolveu apostar - e apostar bastante, diga-se de passagem - nas baladas e boleirões, alguns com letras e melodia com gosto fortíssimo de cafonália, e se deu comercialmente bem.
Pois bem, Celebração tem algumas fragilidades como O que eu Faço Amanhã. Em compensação traz maravilhas antológicas como Cajueiro Velho em que Alcione divide o microfone com uma contida Rita Ribeiro, e Gostoso Veneno em que a Marrom entra com tudo nos vocalises jazzísticos ao lado de Djavan. Algumas releituras superam a original tanto seja nos arranjos e/ou na interpretação. É o caso de Rio Antigo .
Das oito faixas em que canta com seus convidados, a voz de Alcione se sobressai em quase todas. E isso não é uma questão de mixagem; é coisa de gogó mesmo. E o vozeirão da maranhaense consegue abafar até mesmo o de outra diva da MPB: Maria Bethânia. É que a cantora baiana imprimiu singeleza demais em Linda Flor e sua voz simplesmente some quando se une à de Alcione para cantar o refrão.
Por outro lado, Cássia Eller rouba a cena em Não Deixe o Samba Morrer (Edson-Aloísio) justamente o primeiro sucesso da Marrom. Em outras palavras, a interpretação de miss Eller é tão poderosa que quase deixa a proprietária do disco como mera figurante. Não deixa de ser interessante ouvir. Mas por via das dúvidas, ouça o disco por inteiro. Vale a pena.
É que a dignidade musical de Alcione é tão grande, mas tão grande que chega a ser admirável e comovente ouvi-la cantar até mesmo versos piegas como os que constam em Nem Morta (Michael Sullivam-Paulo Massadas). Celebração, ao que parece, foi concebido com o único intuito: eriçar pêlos dos braços alheios. (A.M.J.)





