São Paulo, 06 (AE) - Com a exibição quinta-feira (08) às 20 horas de "Bajo California - El Limite del Tiempo", de Carlos Bolado, o Espaço Unibanco, em São Paulo, dá início ao evento Semana do Cinema: Brasil e Independentes. "California" é um dos dez filmes inéditos, considerados "independentes", que serão exibidos pela mostra. Entre estes, o filé mignon é "Mifune", terceiro exemplar saído do Dogma 95. Além deles, há exemplares da linha "indie" tidos como sucessos de público como "O Balconista", "Crumb", ou "Denise Está Chamando". Outro segmento contempla os primeiros longas de realizadores brasileiros, como "Baile Perfumado", "Um Céu de Estrelas" e "Nós Que aqui Estamos Por Vós Esperamos".
Alguns convidados já confirmaram presença em São Paulo: Tony Bui, diretor de "Três Estações", ganhador do Festival de Sundance deste ano; Rebecca Yeldham, diretora de seleção do Sundance, e Ted Hope, produtor considerado "pai" do cinema independente americano. O argentino Fernando Solanas (de Tangos, o Exílio de Gardel) estará recebendo homenagem e ganhará minirretrospectiva de sua obra. Brasil e Independentes é o chamado evento de conceito. Procura apresentar ao público uma amostragem razoável do que se faz no mundo off-Hollywood.
De onde vêm esses filmes que, de uma maneira ou de outra
ou por uma razão ou por outra, escapam à massificação industrial do cinema de entretenimento? Vêm dos próprios Estados Unidos, onde o movimento indie é associado ao Sundance Institute (e ao festival por ele promovido), do ator e diretor Robert Redford. Mas vêm também da periferia do sistema. Do Brasil e do restante da América Latina, por exemplo; do Irã e do Japão; de alguns países europeus e em especial, agora, da Dinamarca. São filmes que ocupam brechas de um sistema que se quer monolítico.
Como é muito importante a ocupação dessas frestas de mercado, a semana trará também debates entre os interessados. Na sexta, os diretores Beto Brant, Aluísio Abranches, Rosane Svartman, Aurélio Michiles, Lírio Ferreira, Tata Amaral e Eliane Caffé, falarão sobre as dificuldades de colocar o primeiro longa-metragem no celulóide. Na segunda, estarão na mesa Tony Bui, Carlos Bolado, Rebecca Yeldham, Sara Silveira e Ted Hope. Na quarta-feira, dia 14, os distribuidores Jean Thomas e André Sturm (também cineasta) e o exibidor Adhemar de Oliveira discutirão o Dogma 95, série de procedimentos propostos por diretores dinamarqueses para que o cinema pudesse voltar à autenticidade perdida.
O público brasileiro já conhece dois trabalhos do Dogma: "Festa de Família", de Thomas Vinterberg, e "Os Idiotas", de Lars Von Trier. Vai, agora, ter contato com o surpreendente "Mifune", de Soren Kragh-Jacobsen, terceiro signatário do Dogma - o quarto é "Kristian Levring". "Festa de Família" e "Os Idiotas" causaram espanto quando exibidos. Acostumados ao cinema bem-feitinho da produção comercial, os espectadores sentiram desconforto com os procedimentos adotados: câmera na mão, proibição do preto-e-branco e da música sem função dramática no momento da ação, etc.
O Dogma, "um voto de castidade", na expressão dos realizadores dinamarqueses, seria uma tentativa de volta à pureza inicial do cinema, atravancado pela parafernália tecnológica e econômica. Em oposição a ela, querem fazer filmes despojados e baratos. Isso significa voltar a se preocupar com uma boa história e trabalhar intensivamente com os personagens. Mas de nada serviria essa recusa à indústria se o Dogma não manifestasse, sobretudo, uma saudável vocação subversiva.
É o que se vê em "Festa de Família" e "Os Idiotas", mas também no inusitado "Mifune". História de um homem que deixa a lua-de-mel para cuidar do irmão excepcional e acaba trocando sua mulher rica por uma prostituta mais carinhosa - e humana. E é nesse ponto que se revela outra característica do cinema do Dogma: a filiação humanista. Pode-se, com algum favor, generalizar essa tendência para o que de melhor acontece no cinema independente. Nele, o ser humano volta ao lugar central da ação, em geral ocupada por bonecos animados que passam por personagens, robôs ou efeitos (nada) especiais. É um pouco assim em praticamente todas as atrações programadas.
"Bajo California", do mexicano Carlos Bolado, fala de alguém em crise porque julga ter matado uma mulher grávida e então resolve reencontrar o eixo em contato com suas raízes ancestrais. Em "O Olho Mágico do Amor", de José Antonio Garcia e Ícaro Martins, vê-se um exercício personalíssimo de voyeurismo
com uma moça observando os segredos de uma prostituta e identificando-a como modelo de liberação. "Filme Demência", de Carlos Reichenbach, parte de uma leitura original do "Fausto", de Goethe.
"O Pequeno Tony", do holandês Alex van Warmerdam, desperta sensações estranhas com a história de um casal excêntrico. A mulher praticamente joga o marido nos braços de uma jovem professora para que ela gere um filho. Humor negro para ninguém botar defeito. E há também os ótimos (e já conhecidos): "Na Companhia de Homens", de Neil LaBute, sobre dois executivos entediados que decidem vingar-se do gênero feminino; "Denise Está Chamando", de Hal Salwen, que discute a incomunicabilidade no tempo do fax e da Internet, e "Crumb", um maravilhoso documentário de Terry Zwigoff sobre o cartunista undergroud. Se você acha Robert Crumb um tipo meio doidão, espere só para ver o irmão dele e a mãe.

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