Foi-se o tempo em que fazer mala rumo a Gramado era coisa líquida e certa. Lãs em geral, e não se falava mais nisso. Hoje uma aventura. Salvo uma ou outra massa polar perdida e já muito enfraquecida, o resto está mais para meia-estação. Depois de dois dias praticamente de verão, ontem o tempo afinal fechou a cara por aqui para justificar um pouquinho o lado cool da bagagem. E um e outro excesso gastronômico, já que iguarias serranas pedem, quando não exigem, termômetros em queda mais livre.
Pois foi esta indecisão climática que grudou com força nos dois longas- metragens que deram seguimento na mostra competitiva. Os dois tinham mesmo a cara da segunda-feira. Da Argentina, o filme exibido abriu o flanco para se discutir os critérios da seleção da curadoria, ou melhor, do convite, já que de anos para cá os filmes de longa-metragem que disputam os Kikitos não passam pelo crivo de uma comissão.
''Por Sus Propios Ojos'', dirigido por Liliana Paolinelli, não sabe o que fazer, não decide para onde ir, não resolve sua crise de identidade. Ainda bem que este desassossego dura apenas 79 minutos, e o lamento meio perplexo do lado de cá da platéia acaba um pouco mais contido. No argumento, uma estudante prepara para seu curso de cinema um documentário sobre mulheres ou mães de presos. Via de regra todas resistem às filmagens, ou por vergonha ou por medo de complicar ainda mais a vida do prisioneiro. Ela conhece a mãe de um deles, e um estranho vínculo se estabelece entre elas. O filme, pelo menos o do roteiro, acaba sendo realizado com sucesso. Já aquilo que se vê na tela...
Aqui mesmo em Gramado, a gaúcha Liliana Stulbach ganhou o Kikito de melhor documentário em 2004 com o belo e vigoroso ''O Cárcere e a Rua''. Esta Liliana argentina, a Paulinelli, não deve ter visto o filme da xará brasileira. Pois deveria. Teria aprendido muita coisa e com certeza encaminhado uma solução melhor a este seu trabalho frágil, indefinido, carente de personalidade, seja ela documental ou ficcional. Um filme sem rumo, um docudrama falido, com uma arrancada promissora na linha documental mas que aos poucos é desviada para uma vertente ficcional que embaralha as coisas. Uma pena, porque o universo carcerário sempre rico como temática social. O mesmo vale para o tema do jovem aspirante a realizador cinematográfico que se envolve emocionalmente com seus projetos.
Na metade final do programa noturno, a segunda produção gaúcha da mostra, e a primeira em competição. ''Vingança'', na mesma e muito interessante proposta de filme de baixo orçamento praticada pelo filme argentino, tinha tudo para ser muito mais do que é, mas se contenta com pouco e termina limitado a seu campo de visão pragmática - apenas um melodrama criminal bem traduzido em imagens e com perfil de mercado... Este último aspecto, lícito e desejado por todos direta ou indiretamente envolvidos com cinema no Brasil, não excludente de um empenho mais autoral. É disso que o filme carece, desta pegada artística mais pessoal, deste traço diferencial entre burocratas e criadores.
O diretor Paulo Pons, ao narrar sua história de vingança nas mais ortodoxas tradições gaúchas - noivo de mulher estuprada no interior do RS vai ao Rio de faca em punho atrás do estuprador, mas se apaixona pela irmã dele -, faz tudo certo de olho no mercado sempre congestionado para o cinema nacional. Mas o filme raso, desbotado, não aprofunda causas e efeitos dos atos de barbárie que estão na gênese e no desfecho do melodrama.

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