Filmes de baixo orçamento também fazem parte da indústria do cinema e nunca, como hoje, foi tão fácil mostrar para os outros as idéias que a gente tem na cabeça com pouco investimento. Não se deve mensurar em qualidade esses filmes que - para os que apreciam o gênero - divertem mais pela precariedade da produção do que pelo refinamento técnico ou de atuação dos atores.
Com uma câmera na mão cinéfilos decidem contar as suas próprias histórias, o que já merece um pouco de atenção porque essas iniciativas são capazes de transformar um técnico em eletrônica em diretor, donas de casa, vendedores e estudantes em atores.
Para produzir 21 minutos do vídeo ''O camarada que virou burguês'', um grupo de moradores do Jardim Novo Bandeirantes, em Cambé, levou dois anos. Sem apoio ou patrocínio, o orçamento da produção saiu do bolso do diretor, o técnico em eletrônica José Carlos dos Santos, o Jota. Já a idéia de gravar o vídeo era um sonho antigo e da época em que morou em São Paulo, próximo às distribuidoras de pornochanchadas.
''Naquele tempo, conheci o pessoal que morava nas repúblicas e que trabalhava nas pornochanchadas. Morei também em Ouro Preto, quando foi filmado 'Luar Sobre Parador', com Raul Julia e Sônia Braga. A equipe de produção não tinha onde ficar e acabou dividindo a república comigo. Com isso, tive acesso às locações'', revela Jota, o maior contato que teve com a arte cinematográfica, afirmando ter como ídolos Mazzaropi e José Mojica Marins, o criador do personagem Zé do Caixão, o rei do trash brasileiro.
O vídeo é muito simples e não tem uma preocupação técnica rigorosa, como afirma o próprio diretor: ''A gente não se preocupou com planos e contraplanos. Isso a gente deixa para Glauber Rocha'', diz Jota. O que ele e todos os integrantes do projeto pretendiam era contar a história da comunidade na década de 80. O enredo panfletário narra a trajetória de um líder estudantil que acabou seduzido pela promessa de um cargo político.
''Criado a partir de um bolsão de assentamentos entre Londrina e Cambé, o bairro foi formado basicamente por gente da zona rural e que esperou 35 anos para ter asfalto'', comenta o diretor. Ao reunir os moradores em torno do projeto, Jota afirma que pretendia criar um núcleo para que os jovens da região aprendessem que, por meio da arte, podem encontrar uma alternativa profissional.
A produção estreou com direito a tapete vermelho para receber o público e o elenco, alcançando a comunidade de ex-moradores do Novo Bandeirantes que hoje mora na Inglaterra e França. Para o público no exterior, Jota enviou 184 cópias do vídeo, que faz sucesso entre os moradores do bairro. Depois de contar a história do Novo Bandeirantes, Jota e a comunidade pensam numa nova produção em que pretendem realizar um documentário sobre o Ribeirão Cambezinho, que corta a região.

mockup