O sucesso na dança depende de 10% de talento e inspiração e os outros 90% de transpiração. O bailarino Raphael Panta, 16 anos, da Escola Municipal de Teatro, sabe disso. No último mês de outubro, deu um grande salto em seu aprendizado, quando foi convidado às pressas para substituir um bailarino em Assis (SP). Em poucos dias, aprendeu a coreografia do espetáculo ‘‘Eu Vim Lá do Sertão’’, do Ballet Isabel Gusmann. A apresentação aconteceu na cidade de Paraguaçu Paulista (SP), etapa semi-final do Mapa Cultural Paulista, importante evento de difusão da produção cultural de São Paulo.
Numa narrativa corporal retratando a dura realidade dos severinos, Raphael foi observado pela comissão julgadora, em meio a mais de 2.500 bailarinos. Na etapa final da peleja, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, um locutor anunciou: ‘‘o prêmio de melhor bailarino vai para Raphael Panta, do Ballet Isabel Gusmann, de Assis’’. O bailarino foi parabenizado imediatamente, mas sentiu o peso dos olhares espantados. ‘‘Tinha bailarinos ótimos que mereciam o prêmio’’, advoga modestamente. A questão geográfica pesou. Afinal, o jovem substituíra um bailarino que deslocou a omoplata. ‘‘Nunca vi esse menino, é de Londrina e veio ganhar o prêmio’’, ouviu Raphael.
No último dia 25, no Memorial da América Latina, em São Paulo, Raphael Panta recebeu o certificado que o denomina melhor bailarino do Mapa Cultural Paulista Edição 2000. A mais famosa avenida da paulicéia recebeu o garoto morador do Conjunto Habitacional Roseira, na Zona Sul de Londrina, que entrou para o balé como acompanhante da irmã.
Para as aulas diárias, o garoto caminha sob o sol do meio-dia, num percurso de 4 quilômetros a pé. A bolsa-estudo que recebe, ele converte em alimentos para a família. Não se considera pronto para entrar para o Ballet de Londrina, mas alimenta esse sonho diariamente, nas mais de 46 horas em que passa na escola semanalmente. ‘‘O balé exige muita disciplina’’, diz. Como assinalou o experimentado coreógrafo Maurice BSjart, em sua última visita ao Brasil, ‘‘a possibilidade de investir no futuro é um triunfo’’. Um começo e tanto para o um garoto que não saía das ruas e não almejava sonhos liliputianos.(F.F.)

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