O diretor do Ballet de Londrina, Leonardo Ramos, 38 anos, não foi exceção entre os bailarinos que sofreram preconceitos por abraçar a arte. Pernambucano de Recife, ele conviveu desde cedo com a dança, já que a irmã mais velha fazia balé. ‘‘Na família, a arte sempre teve grande importância. Ouvíamos música clássica em casa; ir ao teatro pela primeira vez era um evento familiar...’’. Mas a coisa mudou quando Leonardo tornou-se o assunto em discussão.
Até então, ele apenas acompanhava a irmã às aulas de balé. ‘‘Só fui sentir que queria fazer parte do processo aos 15 anos, época em que minha irmã se profissionalizava em Curitiba’’, lembra.
Durante um ano, Ramos fez dança sem ninguém de casa saber. Conseguiu uma bolsa e mantinha o curso com o auxílio camuflado da irmã. Chegou a passar férias e fazer curso de balé no Rio de Janeiro, sem que ninguém soubesse. ‘‘A crise estourou dois anos depois. Minha mãe, além do desgosto de ter o filho metido ‘nesse meio’, tinha medo de ver os irmãos dela, militares, me matarem. Ou eu ia embora, ou desistia’’, conta.
‘‘Minha mãe questionava como ia dar a notícia às pessoas. Ela não contou, as pessoas descobriram. Foi quando a família começou a querer resolver o problema. Isso foi no início da década de 80. Eu tinha oito tios militares!’’. Antes de completar 18 anos, Leonardo Ramos mudou-se para Curitiba para ser bolsista do Balé Guaíra. ‘‘Desde então vivo de dança, nunca mais dependi de dinheiro da minha família’’, diz.
Ramos chegou em Londrina em 1983 e por aqui ficou. Tornou-se coreógrafo e diretor do Ballet e da Escola Municipal de Dança. Para ele, a independência é um fator fundamental nesses casos. ‘‘É um dos segredos que os mecanismos da dança precisam oferecer. Dar suporte para o aluno. Nessa idade, entre 16 e 17 anos, os garotos de classe média já têm responsabilidades de ajudar em casa’’.
O coreógrafo acredita que para mudar a mentalidade da sociedade é necessário em primeiro lugar vencer o preconceito, que na sua opinião já vem diminuindo. ‘‘Mas depende também da categoria se impor e se dar o respeito’’. Com o mecanismo de incentivo, as coisas podem ser facilitadas.
E hoje, como a família vê tudo isso? ‘‘Uma distância de 3.500 quilômetros e 20 anos separam muita coisa’’, analisa. Ramos só encontra os familiares quando alguma tia assiste a uma apresentação do Ballet de Londrina em Recife. A mãe agora está mais perto – em pouco tempo vai morar em Londrina. (J.S.)

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